Ave considerada extinta há milhares de anos continua viva, revela estudo genético

Durante 150 anos, grandes ossos encontrados em cavernas europeias foram atribuídos a uma espécie desaparecida. Uma nova análise de DNA mostrou que os fósseis pertencem a uma ave que ainda existe. O caso levanta questões importantes sobre a classificação dos organismos do passado.

Imagine descobrir que um animal considerado extinto há milhares de anos, conhecido apenas por seus fósseis, continua vivendo em nosso planeta. Foi exatamente isso que aconteceu com uma ave europeia cuja identidade intrigava os paleontólogos havia mais de um século. Em 1871, o naturalista francês Alphonse Milne-Edwards descreveu ossos de uma ave de grande porte encontrados em cavernas do sul da França. Os restos foram atribuídos a uma espécie extinta de grou, posteriormente conhecida como Grus primigenia. Segundo a cronologia convencional (evolucionista), esses animais viveram durante a última era glacial, há mais de 20 mil anos.

Os ossos eram maiores do que os dos grous-comuns (Grus grus) encontrados atualmente na Europa. Essa diferença anatômica ajudou a sustentar a interpretação de que os fósseis pertenciam a outra espécie, desaparecida no passado remoto. Entretanto, um estudo publicado em 28 de outubro de 2026 na revista científica Royal Society Open Science mostrou que essa classificação estava equivocada.

Uma equipe liderada pelo paleontólogo John Stewart, da Universidade de Bournemouth, no Reino Unido, em colaboração com pesquisadores do Centro de Paleogenética de Estocolmo, na Suécia, analisou DNA antigo extraído de 18 ossos de grous encontrados na Inglaterra, no País de Gales, na França, na Alemanha e nas Ilhas Baleares. O resultado foi surpreendente: os fósseis atribuídos à suposta espécie extinta pertenciam, na verdade, ao grou-comum, a mesma espécie que continua habitando diferentes regiões da Europa e da Ásia. Em outras palavras, o chamado grou-gigante pré-histórico não representava necessariamente uma linhagem desaparecida. Tratava-se de indivíduos maiores de uma espécie ainda existente.

Stewart explicou que os pesquisadores já suspeitavam dessa possibilidade. Uma das razões é que os grous apresentam diferenças de tamanho entre machos e fêmeas, característica que pode ter contribuído para a interpretação equivocada dos fósseis. Além disso, as populações antigas parecem ter incluído indivíduos maiores do que os encontrados atualmente.

Agora, a equipe pretende investigar por que o tamanho dessas aves teria diminuído. Entre as possibilidades consideradas estão mudanças ambientais, drenagem de áreas úmidas e transformações provocadas pela ocupação humana. Essas explicações, contudo, ainda precisam ser testadas.

A descoberta apresenta implicações que vão além da identificação de uma ave.

Durante décadas, a classificação de muitos organismos fósseis dependeu principalmente de características anatômicas, como dimensões, proporções e formato dos ossos. Esse procedimento continua sendo indispensável à paleontologia, especialmente porque a recuperação de DNA antigo é impossível na maioria dos fósseis. Entretanto, o novo estudo demonstra que diferenças morfológicas nem sempre correspondem a diferenças entre espécies.

Nesse caso, uma diferença de tamanho ajudou a sustentar por aproximadamente 150 anos a classificação de um animal como espécie extinta. Somente a análise genética permitiu testar a interpretação anterior com um tipo adicional de evidência.

Os próprios pesquisadores reconhecem que o resultado pode ter consequências para outras classificações paleontológicas. Stewart levantou a possibilidade de que algumas aves consideradas extintas, identificadas principalmente por diferenças de tamanho, também tenham sido classificadas equivocadamente. Isso poderia significar que determinadas estimativas de extinções passadas precisem ser revistas.

Do ponto de vista criacionista, o estudo oferece uma oportunidade para refletir sobre a variabilidade biológica e os limites das reconstruções históricas. A perspectiva de que os seres vivos foram criados com capacidade de reprodução e diversificação dentro de determinados grupos é compatível com a existência de diferenças expressivas entre indivíduos e populações aparentadas.

Os ossos encontrados nas cavernas são evidências materiais. Suas dimensões podem ser medidas e comparadas. O DNA preservado pode ser analisado. Já a conclusão de que aqueles ossos representavam uma espécie extinta era uma interpretação construída a partir dos conhecimentos disponíveis na época. Quando surgiram novas evidências, a interpretação precisou mudar.

É assim que a ciência deve funcionar: hipóteses são confrontadas com dados e revistas quando necessário.

O episódio também convida à cautela diante de representações muito detalhadas de animais extintos, especialmente quando produzidas a partir de poucos fragmentos ósseos. Reconstruções podem ser cientificamente fundamentadas e úteis, mas continuam sujeitas a graus diferentes de incerteza. Nem tudo o que aparece em uma ilustração paleontológica foi diretamente observado nos fósseis.

Referência científica: STEWART, John R. et al. Ancient DNA study resolves the taxonomic status of the extinct large Palaearctic crane Grus primigenia Milne-Edwards, 1871 (Aves: Gruiformes: Gruidae). Royal Society Open Science, 2026. DOI: https://doi.org/10.1098/rsos.260699.

Fonte complementar: BOURNEMOUTH UNIVERSITY. Study has solved a 150-year-old mystery into the identity of the extinct giant crane. 28 out. 2026. https://www.bournemouth.ac.uk/news/2026-10-28/study-has-solved-150-year-old-mystery-identity-extinct-giant-crane

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