
A formação de Durupınar, no leste da Turquia, voltou ao centro das atenções. Conhecida desde 1959 por seu curioso formato semelhante ao casco de uma embarcação e localizada na região tradicionalmente associada às “montanhas de Ararate” mencionadas em Gênesis 8:4, ela há décadas é apontada por alguns pesquisadores como possível local dos restos da Arca de Noé. Até agora, boa parte das alegações recentes se baseava em fotografias, radar de penetração no solo e outros métodos geofísicos. A novidade é que uma equipe internacional começou finalmente a perfurar a formação e retirar amostras físicas de seu interior.
A mudança é importante porque anomalias detectadas por radar podem ter explicações inteiramente naturais. Somente o estudo direto dos materiais encontrados poderá ajudar a determinar se Durupınar é uma formação geológica peculiar ou se existe ali algo que indique intervenção humana. O projeto combina radar, LiDAR, tomografia de resistividade elétrica, perfurações e análises laboratoriais, com a intenção de comparar os resultados obtidos por diferentes métodos.
Um episódio ocorrido durante as perfurações chamou especialmente a atenção. Segundo os pesquisadores envolvidos, uma das brocas encontrou, alguns metros abaixo da superfície, uma camada extremamente resistente e acabou quebrando. Foi levantada a possibilidade de que se trate de madeira fortemente mineralizada ou petrificada, e a equipe também informou ter recuperado material orgânico em algumas amostras. É preciso, porém, deixar isto muito claro: ainda não foi demonstrado que o material seja madeira e muito menos que pertença à Arca de Noé. Uma broca quebrada pode render uma boa manchete, mas não constitui evidência arqueológica. O material terá de ser analisado, datado e, idealmente, submetido à avaliação independente.
A localização também merece atenção. Ao contrário do que muitas vezes se imagina, a Bíblia não afirma que a Arca tenha repousado especificamente no pico hoje conhecido como monte Ararate. Gênesis 8:4 diz que ela repousou sobre as “montanhas de Ararate”, expressão que aponta para uma região. Assim, a localização de Durupınar não entra necessariamente em conflito com o texto bíblico. Por outro lado, estar na região correta e possuir formato semelhante ao de um barco está muito longe de demonstrar que se trate da embarcação descrita em Gênesis.
O que tornaria a descoberta realmente extraordinária seria a convergência de diferentes evidências: madeira trabalhada ou mineralizada inequivocamente identificada, organização estrutural incompatível com processos geológicos naturais, padrões repetitivos relacionados a uma construção, materiais orgânicos associados e datações coerentes. Quanto mais dessas evidências aparecessem juntas e resistissem ao exame de pesquisadores independentes, mais difícil seria explicar Durupınar simplesmente como uma formação natural.
Também precisamos considerar tranquilamente a possibilidade contrária. Se as análises demonstrarem que Durupınar é uma estrutura inteiramente natural, isso não refutará o relato bíblico do Dilúvio; demonstrará apenas que Durupınar não é a Arca. Não existe nenhuma exigência bíblica de que uma embarcação submetida a milênios de processos geológicos, climáticos e humanos tenha chegado preservada aos nossos dias. A historicidade de Gênesis não deve ser colocada sobre os ombros de uma formação geológica na Turquia.
É justamente por isso que essa nova etapa da investigação merece ser acompanhada. Durante décadas, Durupınar alimentou tanto entusiasmos precipitados quanto rejeições categóricas. Agora, em vez de apenas interpretar fotografias e sinais de radar, os pesquisadores começam a retirar material do interior da formação e submetê-lo a testes. Para quem leva a Bíblia a sério, não há necessidade de transformar possibilidades em certezas nem de fabricar evidências para defender as Escrituras. Se existe ali apenas uma formação natural, que os dados o demonstrem. Se existe algo artificial, que as evidências sejam suficientemente fortes para resistir ao escrutínio científico.
Depois de tantos anos, portanto, a pergunta continua aberta, mas ganhou uma possibilidade concreta de resposta: O que, de fato, existe debaixo da formação de Durupınar?
Nota: Existe ainda outra possibilidade apontada por pesquisadores. Em 2008, o turco Ahmet Ertuğrul afirmou ter localizado, no próprio monte Ararate, a grande altitude e sob gelo e rochas, uma estrutura de madeira que poderia corresponder à Arca de Noé. Posteriormente, integrantes da Noah’s Ark Ministries International divulgaram imagens de compartimentos internos e amostras atribuídas ao local. Essa hipótese é distinta da formação de Durupınar e também permanece controversa, sem reconhecimento arqueológico conclusivo. Assim, enquanto novas investigações são realizadas, é prudente considerar as diferentes possibilidades sem declarar antecipadamente que qualquer desses locais seja, de fato, a Arca bíblica.


