Imitar a criação sempre requer inteligência

Um estudante de graduação do Instituto Politécnico Rensselaer, nos Estados Unidos, desenvolveu um biochip capaz de construir moléculas de açúcar complexas e altamente especializadas, imitando o funcionamento de uma das mais importantes estruturas celulares do organismo humano, o Complexo de Golgi. O Complexo de Golgi é uma organela celular que finaliza o processo de síntese das proteínas, recobrindo-as com açúcares em arranjos altamente especializados. A molécula acabada, recoberta com os açúcares, é então despachada para a célula para ajudar na comunicação celular e na determinação da função da própria célula no interior do organismo.

O Complexo de Golgi artificial, construído por Jeffery Martin, funciona basicamente da mesma forma. O biochip se parece com um tabuleiro de xadrez, onde os açúcares, enzimas e outros materiais celulares básicos são suspensos em água, podendo ser transportados e misturados aplicando-se uma tensão elétrica nos quadros de destino do tabuleiro.

Esse processo permite a construção de açúcares de forma automatizada, utilizando ampla variedade de enzimas encontradas no Complexo de Golgi natural. Eles podem então ser testados em células vivas, seja no interior do próprio biochip ou em outros equipamentos no laboratório, de forma a se determinarem seus efeitos.

Com a capacidade oferecida pelo biochip, de processar inúmeras combinações de açúcares e enzimas, de forma rápida e automatizada, os pesquisadores poderão acelerar o processo de descobrimento de novos compostos químicos e de novos medicamentos.

Um dos campos promissores de utilização do novo biochip é na produção de heparina, um ácido produzido naturalmente no Complexo de Golgi, e um importante medicamento anticoagulante.

A principal fonte de heparina hoje são os intestinos de porcos, animais que também produzem o composto naturalmente. Artigos científicos recentes, contudo, alertaram sobre o risco de contaminação da heparina quando ela é extraída de animais. Por isso, cientistas do mundo todo estão trabalhando contra o relógio em busca de formas de produção da heparina que evitem sua contaminação.

(Inovação Tecnológica)

Nota: É interessante notar que sempre que o ser humano tenta copiar algum aspecto ou processo presente na criação, isso demanda tempo, dinheiro, tecnologia de ponta e… design inteligente. No entanto, alguns acreditam que a natureza poderia casualmente e de forma não dirigida/inteligente dar origem a esses processos supercomplexos. Incoerente, não? [MB]

Livro tenta discutir origem da vida e evolução

Resenha publicada na Folha Online: “A origem da vida é um tema que atrai o interesse do homem. A curiosidade em saber como a existência começou e como os diferentes seres vivos se tornaram o que são hoje é uma das principais questões da biologia. Para a maior parte dos cientistas a resposta está na evolução.

“No livro Evolução, da ‘Série Mais Ciência’, da Publifolha, o autor David Burnie discute o processo evolutivo, explica o desenvolvimento das espécies, oferece evidências e explicações sobre as causas da evolução e os mecanismos da seleção natural. Em linguagem simples e de fácil entendimento, o volume ilustrado apresenta conceitos científicos de maneira acessível e prática.

“‘A evolução é um processo gradual de mudanças químicas e físicas que começaram antes mesmo do surgimento da vida propriamente dita, e continua até hoje’, explica o autor.

“As adaptações dos animais, a evolução de parasitas e hospedeiros a extinção de espécies são outros assuntos abordados ao longo do livro. Sobre a origem da vida o volume traz um capítulo especial que discute os diferentes posicionamentos de especialistas. ‘Uma possibilidade é que os primeiros seres vivos da Terra já tenham chegado do espaço formados, mas a maioria dos cientistas não está convencida disso e acredita que a vida na Terra surgiu a partir de matéria não viva.'”

Nota: Fiz questão de grifar dois trechos da resenha para chamar atenção para alguns detalhes curiosos: (1) o autor do livro afirma que a evolução é um processo que começou “antes mesmo do surgimento da vida”, ao passo que muitos darwinistas com quem dialoguei sustentam a tese de que a teoria da evolução só se preocupa com a evolução da vida propriamente dita. (2) O livro também diz que a maioria dos cientistas está convencida de que a vida na Terra surgiu a partir de matéria não viva. Isso é abiogênese (e eu discuto o assunto no vídeo abaixo). Falar é fácil; provar é outra história – clique aqui e saiba por quê. (3) O autor levanta a hipótese da panspermia cósmica, ou origem extraterrestre, que nada mais é que uma forma de jogar o problema para fora – é impossível explicar a origem da vida neste planeta a partir de matéria não viva, assim, dizem que a vida surgiu em algum ponto do espaço (impossível de ser investigado, diga-se de passagem) e veio para cá a bordo de um meteorito (veja o vídeo abaixo). Note bem: essa tal forma de vida (talvez algum tipo de bactéria) teria sobrevivido aos rigores do espaço sideral (radiações cósmicas, vácuo e frio), resistido às altas temperaturas da fricção com o ar, causada pela entrada do meteorito na atmosfera, e, finalmente, saído ilesa do impacto contra o solo (ou a água). Essa “bactéria kryptoniana” teria originado todas as formas de vida de nosso planeta! E eu que sou crente! [MB]

Pegadas de dinossauros no Iêmen

Cientistas dizem ter descoberto, no Iêmen, pegadas de dinossauros datadas de 150 milhões de anos [segundo a cronologia evolucionista]. Os rastros encontrados teriam sido feitos por um rebanho de 11 saurópodos e por outra espécie de dinossauro de duas patas que pertencia à família dos ornitópodes e comia plantas. Segundo a descoberta, publicada em 2008 revista científica Public Library of Sciences One, as pegadas não teriam sido identificadas antes pois estavam cobertas por escombros e entulhos. As pegadas foram observadas pela primeira vez na região de Madar, ao norte da capital, Sanaa, por uma jornalista iemenita. Posteriormente, foram classificadas como pertencentes a um ornitópode – dinossauro grande que existiu durante o fim do Período Triássico até o fim do Cretáceo. Em 2006, uma geóloga da Universidade de Sanaa descobriu que as pegadas mais redondas, similares à dos elefantes, pertenciam a outra família de dinossauros – a dos gigantes saurópodos.

Segundo Anne Schulp, do Museu de História Natural de Maastricht, na Holanda, que ajuda na investigação, “as pegadas estão muito bem preservadas”. “O mais impressionante é que temos várias pegadas dos saurópodos, 11 dinossauros caminhando na mesma direção”, afirmou Schulp à BBC News. “Trata-se de um grupo de animais de tamanhos diferentes, portanto, temos dinossauros de todas as idades vivendo juntos nesta localidade”, disse.

Até então, apenas alguns fósseis de dinossauros haviam sido encontrados na Península Arábica, incluindo alguns ossos no Omã e possíveis fragmentos de um dinossauro de pescoço comprido no Iêmen. “É a primeira vez que encontramos pegadas de dinossauros na Península, portanto trata-se mesmo de uma primeira descoberta”, afirmou Schulp.

(BBC Brasil)

Nota: Não sou especialista no assunto, mas a disposição das pegadas me sugere um tipo de migração ou fuga. Isso parece ser reforçado pelo fato de haver duas espécies caminhando juntas. Para que pegadas fósseis sejam preservadas, os animais têm que imprimi-las na lama e, depois, essas mesmas pegadas têm que ser cobertas por outra camada de lama, a fim de que sejam protegidas da ação das intempéries e a lama possa petrificar. Fósseis de dinossauros e de suas pegadas são encontrados em várias partes do mundo e sugerem que houve uma catástrofe hídrica responsável por esses vestígios. [MB]

Ellen White escreveu há um século: “É verdade que vestígios encontrados na terra testificam da existência do homem, animais e plantas muito maiores do que os que hoje se conhecem. Tais são considerados como a prova da existência da vida vegetal e animal anterior ao tempo referido no relato mosaico. Mas com referência a estas coisas a história bíblica fornece ampla explicação. Antes do dilúvio o desenvolvimento da vida vegetal e animal era superior ao que desde então se conhece. Por ocasião do dilúvio fragmentou-se a superfície da Terra, notáveis mudanças ocorreram, e na remodelação da crosta terrestre foram preservadas muitas evidências da vida previamente existente. As vastas florestas sepultadas na terra no tempo do dilúvio, e desde então transformadas em carvão, formam os extensos territórios carboníferos, e fazem o suprimento de óleos que servem ao nosso conforto e comodidade hoje. Estas coisas, ao serem trazidas à luz, são testemunhas a testificarem silenciosamente da verdade da Palavra de Deus” (Educação, p. 129).

Evolução ou retorno às origens?

Para alguns darwinistas, modificações sofridas pela lagartixa italiana Podarcis sicula nas últimas décadas são exemplo de “evolução”. Tudo começou em 1971, quando um grupo de pesquisadores transportou cinco fêmeas e cinco machos da espécie Podarcis de uma ilha do Mar Adriático para outra ilha do mesmo mar. Trinta e seis anos depois, Anthony Herrel e outros biólogos voltaram às ilhas para ver as lagartixas. Numa das ilhas, as lagartixas eram como sempre foram: pequenas, rápidas, comiam insetos e os machos lutavam para controlar o território. Mas, na outra ilha, uma surpresa esperava os pesquisadores.

Lá, além dos insetos, as lagartixas comiam folhas, principalmente na primavera e no verão. Essa foi considerada uma mudança muito brusca em apenas 30 gerações, levando-os a analisar o DNA para ter certeza de que se tratava da mesma espécie em ambas as ilhas. E eram, apesar de não mais lutarem por seus territórios.

Essa mudança de comportamento foi acompanhada por mudanças físicas. O crânio dessas “novas” lagartixas é maior e mais largo, o que faz com que as mordidas sejam mais fortes – o que se torna útil quando se tem que comer folhas duras em lugar de mosquitos.

Mas a mudança mais surpreendente estava no intestino das “novas” lagartixas. Elas se tornaram capazes de acumular a celulose das plantas por tempo suficiente para ser digerida pelas bactérias intestinais (algo semelhante ao que fazem os herbívoros).

O que ocorreu com o Podarcis sicula é bastante semelhante à “evolução” dos tentilhões observados por Darwin nas ilhas Galápagos (na verdade, quem estudou mesmo os tentilhões foi o ornitólogo John Gould). O que muitos livros-textos procuram é tentar induzir os alunos a crer que a variação dos tentilhões de Darwin explica a origem das espécies por meio da seleção natural. Mas o fato é que não ocorreu nenhuma macroevolução. Os tentilhões, apesar da variedade de bicos e costumes alimentares, continuam sendo tentilhões; assim como as lagartixas do Mar Adrático, apesar das modificações que sofreram, continuam sendo lagartixas.

Falando em tentilhões, note o que William Brookfield escreveu: “A ‘macroevolução’ é uma extrapolação da ‘microevolução’. A ‘microevolução’, por sua vez, é dependente da flexibilidade de cada espécie. Essa flexibilidade/adaptabilidade é em si um atributo de design positivo que exige uma explicação. Os tentilhões de Galápagos que sufocariam imediatamente e morreriam com as primeiras sementes endurecidas pela seca, são fáceis de ser planejados comparados com os tentilhões de Galápagos que podem adaptar e sobreviver diante de incontáveis ataques ambientais. Um programa de computador que mal pode rodar num único ambiente de computador é muito mais fácil de planejar do que um programa que pode se adaptar, autocorrigir-se, e prosperar em incontáveis ambientes de computadores (PC, Mac, Unix, Atari, etc.). Se as espécies vivas fossem mais pobremente planejadas, elas morreriam imediatamente em resposta a mais insignificante mudança ambiental – e não haveria ‘evolução’ darwiniana. A informação genética correspondente a cada mudança ambiental tem que estar no lugar antes que qualquer organismo possa ‘evoluir’ em resposta à pressão seletiva. Portanto, a teoria darwinista não tem validade em si mesma e é totalmente parasítica no design requintadamente competente. O fator mais importante é que as espécies adaptáveis são exponencialmente mais ricas em informação do que as espécies que não são adaptáveis. Assim, toda a ‘evidência da evolução’ (as mariposas de Manchester, resistência antibiótica pelas bactérias, etc.) é, na verdade, [evidência] a favor do design.”

Como o termo “evolução” é de uma plasticidade semântica incrível, “evoluiu”, tanto no caso da lagartixa quanto no dos tentilhões, significa que houve algumas alterações limitadas. E só.

O que se observou em 33 anos de pesquisas com os tentilhões? Uma espécie se transmutando noutra espécie? Não, apenas a redução do tamanho médio de bicos em uma população de tentilhões-da-terra-médios (Geospiza fortis) que já tinham bicos pequenos. Isso é chamado de “deslocamento de caráter” (character displacement), quando uma espécie adquire características diferentes em razão da competição com outra. Em 1982, uma população de tentilhões-da-terra-grandes (G. magnirostris) invadiu a ilha de Daphne Maior, competindo por comida com a população dominadora de tentilhões-da-terra-médios (G. fortis). Confira esse estudo na Science.

Para complicar mais ainda, diversas espécies de tentilhões parecem estar se misturando por hibridização, em vez da diversificação através da seleção natural, como exige a teoria neodarwinista. (Peter R. Grant e B. Rosemary Grant, “Hybridization of Bird Species”, Science 256 [1992], p. 193-197)

Para finalizar, é curioso notar a facilidade com que a Podarcis sicula se tornou herbívora. Seria isso o “eco” de um passado distante, quando todos os seres vivos se alimentavam de vegetais? Portanto, trata-se de “evolução” ou uma espécie de “retorno às origens”? Dá o que pensar… [MB]

Cadê a poesia, Dr. Drauzio?

Quem lê as colunas de Drauzio Varella na Folha de S. Paulo já sabe o que esperar desta coletânea de ensaios [publicada] pela Companhia das Letras [Borboletas da Alma]. Quem não lê, terá o prazer adicional da surpresa. A maravilha desses textos é que eles são absolutamente informativos a respeito de temas científicos e médicos, mas são também muitas vezes de um lirismo que embala a alma.

“A vida na Terra é um rio que começou a correr há quase 4 bilhões de anos, e chegou até você e eu no meio de uma diversidade espetacular: leões, mosquitos, coqueiros, bactérias, algas marinhas e dezenas de milhões de outras espécies.” Assim começa o livro, e é por esse rio que Drauzio Varella nos conduz ao longo das mais de trezentas páginas que se seguem.

Alguns textos são cheios de poesia, outros mais pragmáticos descrevem mazelas de saúde e afins. Todos aumentam nosso conhecimento sobre o mundo, sobre o nosso dia-a-dia, sobre o funcionamento do corpo humano. E muito mais.

Tive a sorte de organizar o volume, o que quer dizer que li e reli todos os textos. O mundo ficou mais claro, e seus mistérios mais bonitos. Junto minha voz à do autor: “Com todo o respeito pelos que acreditam ter sido o homem criado por um sopro transcendental, a visão de que a vida surgiu aleatoriamente, há quase 4 bilhões de anos, a partir de moléculas capazes de fazer cópias de si mesmas e que, através da seleção natural, formaram seres tão díspares quanto bactérias, árvores e mamíferos encerra mais mistério e poesia.”

(Maria Guimarães, em Ciência e Idéias)

Nota: Admiro o Dr. Drauzio pelo trabalho sério que ele realiza no campo da medicina e pela popularização de tratamentos e de hábitos preventivos que ele promove na mídia. Mas discordo totalmente de sua “visão poética” da vida. Com todo respeito pelos que acreditam ter o homem se originado de matéria não viva num “mar primitivo” passando pela evolução não dirigida de seres primitivos ao longo de bilhões de anos, a visão de que a vida foi inteligentemente e amorosamente planejada pelo Criador que nos fez à Sua imagem e semelhança, criando dois sexos dotados de diferenças que se complementam e de suficientes semelhanças para se perceberem como iguais é muito mais bela e carregada de poesia. Basta ler os primeiros capítulos de Gênesis em comparação com qualquer livro que trate do surgimento da vida segundo a visão darwinista, para notar onde está, realmente, a verdadeira “poesia”. [MB]

O Êxodo na mira da imprensa e do cinema

“Os Dez Mandamentos”, “O Príncipe do Egito”, “Êxodo: Deuses e Reis”. Enquanto os dois primeiros filmes foram lançados em épocas em que o ceticismo contra o relato bíblico ainda era confinado às universidades e a poucos segmentos da sociedade, a mais recente versão da história bíblica do Êxodo surgiu como mais um ingrediente no debate envolvendo religião, violência, mitologia e antagonismo bíblico. O texto abaixo é uma reação à matéria de capa da revista Superinteressante de janeiro de 2015, sobre o principal evento da nação israelita, como registrado nas páginas sagradas. Antes de mais nada, devo parabenizar o autor da matéria pela maneira clara e descontraída com que descreveu a história do Antigo Oriente. Apesar de não concordar com muitas das opiniões dele sobre o Antigo Testamento, como será demonstrado abaixo, isso não tira o mérito de Alexandre Versignassi pelo seu texto. Porém, apresento aqui dois problemas metodológicos do articulista. Primeiro, em linhas gerais, ele traduziu para um português bem claro a chamada “hermenêutica da dúvida”, que sempre trata o texto bíblico “culpado, até ser provado inocente”. Isso porque muitos acadêmicos confundiram leitura crítica com leitura cética. Lidar com um texto antigo com o ceticismo do século 21 não é a melhor abordagem metodológica. E não estou falando do sobrenatural. Estou falando de uma reconstrução histórica do ambiente que o relato bíblico supostamente descreve. Por que não lidar com o texto antigo desta forma: “Inocente, até ser provado culpado”?

Em segundo lugar, o autor cita dois acadêmicos para falar sobre Israel no Antigo Testamento, Richard Freedman e Israel Finkelstein. Isso é para lá de tendencioso. Seria o mesmo que pedir para os líderes do Hamas e do Hezbollah opinarem sobre Israel e EUA. Não há como esperar uma visão equilibrada sobre o Êxodo e o surgimento da nação Israelita da parte deles. Não estou desqualificando o trabalho dos dois, o que estou dizendo é que existem opiniões diferentes e que deveriam também ser ouvidas e contrastadas.

Um deles é meu professor, James K. Hoffmeier, egiptólogo formado pela Universidade de Toronto, no Canadá. Dois dos seus livros lidam diretamente sobre o assunto: Israel in Egypt (1996) e Ancient Israel in Sinai (2005), ambos publicados pela Oxford University Press. Além de professor de Antigo Testamento, Hoffmeier leciona Egípcio Antigo há mais de 30 anos, o que lhe permite falar naturalmente sobre condições políticas, econômicas e militares do período do Reino Novo do Egito (Dinastias 18-20), a época em que a Bíblia situa o Êxodo.

Outro acadêmico que deu inúmeras contribuições para o estudo do Antigo Oriente e Antigo Testamento é Kenneth Kitchen, egiptólogo aposentado da Universidade de Liverpool, na Inglaterra. Seu domínio em mais de 15 línguas do Antigo Oriente lhe permite falar como ninguém sobre o dia a dia das cortes, dos templos e fortes militares durante a Idade do Bronze e do Ferro. Ele, inclusive, aprendeu português com a única finalidade de publicar o texto dos monumentos (estelas) de Ramsés II que estão no Museu do Rio de Janeiro, já que ele é uma respeitada autoridade no período Ramessida. E imagine só: tanto Kitchen como Hoffmeier são cristãos evangélicos! Eles não usam as publicações para converter pessoas ao cristianismo, mas, sim, para apresentar uma visão equilibrada sobre o mundo do Antigo Oriente e as páginas do relato bíblico.

Num debate intelectual, cristãos geralmente são chamados de preguiçosos. Fica aqui uma simples comparação: em seu livro E a Bíblia não Tinha Razão, Israel Finkelstein gastou 24 páginas para falar sobre o Êxodo, com onze sugestões de leitura sobre o assunto no fim do livro. Numa obra com a mesma temática, Kitchen escreveu 72 páginas e com um total de 145 notas de rodapé. Quantos leram as páginas de Finkelstein? Quantos leram o que Kitchen escreveu? Não tenho números exatos, mas sem dúvida a sede por informações rápidas e condensadas da nossa geração prefereriria o que Finkestein escreveu, e o pior, não se daria ao trabalho de ler opiniões contrárias.

A ausência de evidências diretamente relacionadas com Moisés, os israelitas e o Êxodo bíblico é a avenida principal para o ceticismo – ingênuo, eu diria – de muitos historiadores, curiosos no assunto, e até mesmo teólogos bíblicos, principalmente aqueles que gastam mais tempo estudando teorias literárias sem fundamento e esquecem de olhar o mundo ao redor do Antigo Testamento. Existem pelo menos três motivos pelos quais não disposmos de tais evidências:

Primeiro, o contexto geográfico de Êxodo 1–14 é a região do Delta do Nilo, uma região que por milênios tem acumulado lama das inundações anuais do Nilo. Estruturas de tijolos de barro tinham duração limitada e eram repetidamente substituidas por outras, devido a essas inundações. Afirmar que “nenhuma evidência dos israelitas no Egito jamais foi encontrada” é muitas ingênuidade, e esperar por essas evidências é perda de tempo. Até mesmo estruturas de pedra dificilmente foram preservadas na região.

Segundo, a situação se torna mais drástica quando se pensa em papiros. Na lama, 99% dos papiros desaparecem para sempre. Apenas um pouco dos papiros da região oriental do delta foi recuperada no deserto próximo a Mênfis. 

Terceiro, faraós não registravam suas derrotas. Eles jamais deixariam um monumento ou registro nas paredes de um templo relatando a rebelião de um grupo de escravos que resultou na perda de carruagens e soldados, como na história bíblica do Êxodo. Os textos egípcios sobre a batalha de Qadesh, por exemplo, apresentam Ramsés II como o grande vitorioso. Já a versão hitita da mesma batalha tem o rei Muwatali como vencedor.

Portanto, para “confirmar” a história bíblica, é inútil esperar evidências que não estão lá no Delta. Se, como cavalos, limitarmos nossas viseiras para o pouco que a arqueologia pode trazer à luz, então não há nada a ser dito sobre o Êxodo. Há necessidade de uma abordagem mais contextual, tanto do relato bíblico como do ambiente histórico que ele supostamente descreve.

Dito isso, apresento abaixo algumas considerações sobre a matéria da Super:

“Os israelistas nao foram escravos e nunca migraram para o Egito”: o chamado Segundo Período Intermediário da história Egípcia (Ca. 1650-1550 a.C.) encaixa-se bem nas descrições da história de José, no fim do livro de Gênesis, e do primeiro capítulo de Êxodo. Os hekau khasut, também conhecidos como Hyksos, estavam dominando a região do Delta do Nilo. Eles eram de origem siro-palestina. Anterior a esse período, temos o famoso painel de Beni Hassan, que descreve um semita chamado Absha (ou Ibsha) chegando ao Egito com seu grupo de 37 pessoas e entregando seu “visto” em um dos pontos de imigração. Sendo assim, imaginar um grupo de aproximadamente 70 pessoas, a família de Jacó, entrando no Egito na mesma época, não é nenhum problema do ponto de vista histórico. Também dispomos de ilustrações de trabalho escravo no período da 18ª dinastia, exatamente o período em que o poder voltou para as mãos dos egípcios que reinavam a partir de Tebas, com uma política fortemente anti-hyksos, porque não antissemita. Numa das pinturas da tumba de Rekhmire, um vizir (i.e. primeiro ministro), é possível ver prisioneiros de guerra semitas e núbios fazendo tijolos. Em suma, não precisamos de uma fé extraordinária para imaginar grupos de semitas indo para o Egito e, depois de um tempo, se depararem com uma mudança radical nas políticas internas e enfrentar trabalho escravo.

Foto 1 – Mural de Beni Hassan: semitas entram no Egito

O número dos israelitas: somos informados de que o número de israelitas que saíram do Egito era de 600 mil homens, sem contar mulheres e crianças (Êx 12:27). Como o articulista calculou, adicionando uma esposa e uma criança para cada homem, temos quase dois milhões de pessoas. E aqui temos um grande problema. Há informações detalhadas sobre o exército egípico no período do Reino Novo. Era um total de aproximadamente 25 mil soldados, de acordo com Anthony Spalinger, uma das principais autoridades no assunto. A população egípcia era de aproximadamente dois a três milhões de pessoas. Se os israelistas fossem uma nação tão grande assim, eles não precisariam de um Moisés ou de Deus para libertá-los. Eles poderiam sair a hora que bem entendessem! Em lugar de descartar a informação bíblica, seria bom tentar entendê-la melhor. O que significa a palavra “mil” (heb. ‘eleph)? Ela pode significar unidade de mil pessoas, unidade militar ou pelotão, líder de um grupo, clã e tribo. Em algumas passagens do Antigo Testamento em que ela é utilizada, o significado “mil” não parece ser uma boa opção. Por exemplo, 2 Reis 13:7 menciona 50 cavalheiros, 10 carruagens e 100 mil soldados! Esse é um número discrepante, comparado com os dois anteriores. Em 1 Reis 20:29, 30, vinte e sete “mil” soldados foram mortos porque uma parede caiu sobre eles! Essa deveria ser uma parede enorme.

Kitchen, Hoffmeier e outros acadêmicos sugerem que ‘eleph, no contexto das passagens do Êxodo, deve ser entendido como um “pelotão” ou “líder militar”; e de acordo com a correspondência diplomática do faraó Akhenaten e reis de Canaã e Síria, as chamadas cartas de Amarna, um pelotão tinha nove soldados. Seiscentos líderes de pelotões ou unidades militares com nove soldados cada um são 5.400 homens.

Atribuindo uma esposa e alguns filhos para cada um, temos aproximadamente 20 a 22 mil israelitas saindo do Egito. Sendo que a população de Canaã durante a Idade do Ferro (Ca. 1150 a.C.) era de 50 a 70 mil, esse número de israelitas se encaixa muito bem com o que se conhece por meio de estudos arqueológicos em Israel. Apenas a título de ilustração, a maior cidade de Canaã naquela época (13º século a.C.), Hazor, não era maior do que um quilômetro quadrado. As outras cidades que os israelitas conquistaram eram bem menores do que ela. Uma população de dois milhões de israelitas certamente deixaria um rastro muito claro e impossível de não ser notado em escavações feitas em Israel.

Note que não se trata de acreditar ou desacreditar o relato bíblico, mas, sim, de entendê-lo corretamente à luz de sua língua original e do seu contexto histórico.

Origens de Israel: esse é um dos tópicos mais discutidos em simpósios e fóruns bíblicos ao redor do mundo. Não temos espaço para discutir o assunto em um parágrafro, mas basta dizer que existem basicamente três teorias para a origem de Israel em Canaã: (1) o modelo bíblico da “conquista”, como numa leitura equivocada e exagerada do livro de Josué; (2) tribos nômades entrando naquele território pela região da Transjordânia, a região à direita do rio Jordão; e (3) Israel nunca saiu da “Terra Prometida”, eles se originaram e se desenvolveram lá. Uma quarta teoria tem sido defendida por Finkelstein, afirmando que os israelitas eram pastores cananeus que sempre viveram ali na região.

Se Israel se originou em Canaã, como o articulista sugere, e não de uma saída em massa do Antigo Egito, por que diversos elementos da religião israelita tinham um curioso reflexo da religião egípcia? O tabernáculo no deserto (Êx 25–40), por exemplo, segue o mesmo modelo da tenda de Ramsés II em suas campanhas militares, e os utensílios desse tabernáculo portátil, a arca da aliança, o candelabro, o altar de incenso, as cortinas, entre outros, têm uma clara influência egípcia.

Se Israel se originou em Canaã, por que a vemos proibição do porco na dieta israelita (Lev. 11), algo facilmente verificável em restos arqueológicos, enquanto os filisteus tinham carne suína como parte fundamental de sua dieta? Porcos eram considerados impuros no Antigo Egito, e até mesmo chamados de bw, abominar, detestar, ou bwt, abominação. Existem elementos na cultura e na religião israelita que não são explicados pela teoria de Finkelstein apresentada na Super.

Yahweh e as origens do monoteísmo: vemos traços de monoteísmo no Antigo Egito muito antes do polêmico faraó Akhenaten. No chamado “Hino a Atum” (Ca. 1500/1400 a.C.), Amun-Re é exaltado como criador de outros deuses e da humanidade. O conteúdo do hino parece ser mais antigo, tendo sido preservado em uma estátua produzida entre as 13ª e 17ª dinastias (Ca. 1790–1540 a.C.), muito próximo da época dos patriarcas. Por falar neles, Abraão, Isaque e Jacó usam os nomes divinos El e Yahweh de maneira intercambiável. Afirmar que o nome El é reflexo de influências pagãs na religião israelita pode ser uma conclusão apressada, já que nas narrativas patriarcais existe ausência de qualquer adoração a Ba’al, um deus que também fazia parte do mesmo panteão de que El era o líder. Quanto a Yahweh (ou Javé) ser uma divindade vinda de Midiã, realmente existem diversos poemas antigos no Antigo Testamento que parecem sugerir isso (Juízes 5; Habacuque 3, etc.), e o fato de Moisés ter passado boa parte de sua vida adulta ali parece favorecer a ideia de que o libertador israelita tenha aderido ao culto a Yahweh ali. O tópico é controverso, mas por que não considerar esses textos como uma descrição poética da marcha militar de Yahweh e dos israelitas saindo do Egito e passando por Midiã rumo a Canaã? Por que eles precisariam necessariamente ser uma declaração da origem do culto a Yahweh?

“Êxodo” na época da invasão dos “povos do mar”: a sugestão apresentada por Versignassi que o “Êxodo” na verdade foi a fuga de poucos escravos cananeus numa época onde o exército egípcio estava ocupado demais tentando proteger as fronteiras do império é interessante, mas requer uma grande ginástica histórica. Ramsés III lutou contra os “povos do mar”, entre eles os conhecidos filisteus, em 1180 a.C., logo no começo do seu reinado. Alguns anos antes, o faraó Merneptah deixou registrado um documento comemorativo (estela) de suas campanhas em Canaã, no qual ele menciona pela primeira vez um grupo étnico que ele chama de “Israel” e que vivia ali por volta de 1207 a.C. Nesse documento, Israel é descrito como um grupo nômade vivendo em Canaã, e essa é exatamente a informação que temos de Israel no livro de Juízes. Um povo sem rei e sem uma capital; apenas um centro religioso onde o tabernáculo estava localizado, Siló. Mas em vez de de se manter com esse cenário bem fundamentado, o articulista está pressupondo a teoria de Finkelstein de que os israelitas se originaram em Canaã, uma teoria que está longe de ser unanimidade nos círculos arqueólogicos.

Foto 2: Estela do faraó Merneptah

Abertura do “Mar Vermelho”: “Mar Vermelho” é uma tradução baseada na versão grega do Antigo Testamento, a Septuaginta (LXX). O texto hebraico de Êxodo simplesmente traz “mar de juncos” (heb. yam suph), região também conhecida em textos egípcios do Reino Novo como pa tufy, como sugerido pelo arqueólogo austriáco Manfed Bietak. Se reunirmos as coordenadas geográficas e os nomes dos lugares (topografia) mencionados em Êxodo 12:37 e 14:1-9 e compararmos com a documentação egípcia obtida nas inscrições de Seti I, pai de Ramsés II, no Templo de Karnak, em Luxor, podemos localizar com segurança o “mar vermelho”. Tradicionalmente pensa-se que este seria o Golfo de Suez, entre o Egito e a Península do Sinai. Na verdade, trata-se dos lagos el-Ballah, que não existem mais desde que o canal de Suez foi feito no século 19. Estudos naquela região em 1995 revelaram um porto no qual barcos ficavam estacionados. Ele tinha aproximadamente 15 km de extensão e uma profundidade de três metros. Seria perfeitamente possível comparar tamanha quantidade de água com um muro à esquerda e à direita dos israelitas (Êx 14:22).

Foto 3 – A proposta rota do Êxodo está marcada em vermelho. O “Mar Vermelho” são os lagos El-Ballah, no lado direito do mapa

Esse é o principal aspecto sobrenatural da história e é aqui que os céticos se apegam para desmentir todo o relato do Êxodo. Essa é outra discussão. Bastaria dizer por agora que ninguém no Antigo Oriente colocava uma roupagem histórica num mito para lê-lo como uma história real. Se você compartilha de uma visão de mundo onde Deus é real e Ele é o Criador, eventos miraculosos não são um problema, afinal é Ele quem governa toda a Sua criação.

Hoffmeier apresentou recentemente duas palestras sobre a geografia do Êxodo e as diversas teorias que circulam na internet. Uma delas foi com o geólogo Stephen Moshier. Você pode ter acesso a elas aqui e aqui. Vale a pena também ler um artigo publicado há alguns anos neste blog pelo Dr. Rodrigo Silva (confira).

Levitas: a teoria de que os levitas foram o único grupo que esteve no Egito não é nova. Desde muito cedo, acadêmicos reconheceram a presença de nomes egípicios entre alguns membros dessa tribo. Se esse é o argumento, deveríamos incluir a tribo de Naftali, já que um dos seus líderes se chamava Ahira, uma combinação das palavras “amigo” e “Rá”, em hebraico e egípcio, respectivamente (Nm 1:15; 2:29; 7:78; 8:3; 10:27). Também deveríamos incluir a tribo de Judá, já que Hur, que ajudou Moisés a manter seus braços erguidos numa batalha contra os amalequitas, muito provavelmente é o nomedo deus egípcio Hórus (hr). Recentemente, outro acadêmico, Richard Hess, fez um estudo dos nomes daqueles que saíram do Egito e a conclusão dele é a de que são nomes de várias etnias (egípcios, semitas, hititas e hurritas), no mesmo período do Êxodo, fortalecendo o relato bíblico que afirma que um “misto de gente” saiu do Egito com os israelitas. (Êx 12:38).

Leis do Pentateuco: a opinião quase generalizada de biblistas treinados única e exclusivamente em hebraico, e treinamento amador nas línguas do Antigo Oriente, é que o Pentateuco foi escrito na época do rei Josias, rei de Jerusalém, no sétimo século a.C., e não na época de Moisés. Mas os mesmos biblistas parecem se esquecer de que códigos eram comuns no Antigo Oriente, entre eles os textos sumerianos das leis de Ur-Nammu (2100 a.C.), Lipit-Ishtar (1930 a.C.), e o famoso código de Hamurabi (1780 a.C.), escrito em acadiano. A estrutura do livro de Deuteronômio, por exemplo, é idêntica à de tratados entre um suzerano e seus vassalos do século 13 a.C., muito comuns no Antigo Oriente, na época de Moisés e dos israelitas que saíram do Egito, não na época do rei Josias. Colocar a produção do Pentateuco na época desse rei é o mesmo que ignorar a vasta literatura do Antigo Oriente, disponível para ser comparada. 

Escravidão: escrevi sobre escravidão no Antigo Testamento em resposta a outra matéria do mesmo autor (confira aqui). Se você assitiu ao recente filme “12 anos de escravidão”, deve se lembrar de uma cena em que o dono de uma fazenda começa o dia de trabalho lendo um trecho de Êxodo 21 para seus escravos negros. É inegável que muitas atrocidades foram cometidas em nome do cristianismo, apesar de seu Fundador jamais sancioná-las. Mas a pergunta é: O texto bíblico estava realmente autorizando essas práticas? No caso da escravidão, aí vão alguns breves comentários à luz de Êxodo 21:1-11: (a) por escravidão, entenda servidão. O trabalho de seis anos era para pagar dívidas; (b) o texto aparentemente sugere que a escravidão separava famílias, já que após o período de trabalho o homem deixaria a esposa e os filhos, caso houvesse começado solteiro seus seis anos de trabalho. Em outra passagem em que a mesma lei é repetida, é-nos dito que mulheres também estavam sujeitas ao mesmo período de trabalho (Dt 15:12). Ou seja, a mudança no status matrimonial não anulava o contrato de trabalho de seis anos. A esposa, que também seria escrava, teria que cumprir o período de servidão.

Essa foi a primeira lei que Deus deu aos israelitas após o pronunciamento dos Dez Mandamentos (Êx 20). Se você ler atentamente esse texto (Êx 21:1-11), vai notar a constante repetição de um verbo: “sair”. Esse é o mesmo verbo utilizado para falar da “saída” (Êxodo) dos israelitas. Em outras palavras, o Legislador de Israel, Yahweh, estava dizendo: vocês tiveram um êxodo como escravos, agora seus servos também devem ter um.

Conclusão

Quando convocado a deixar os israelitas saírem do Egito, faraó respondeu prepotentemente: “Quem é o Senhor para eu Lhe ouça a voz e deixe ir a Israel? Não conheço o Senhor, nem tampouco deixarei ir a Israel” (Êx 5:2). Sendo assim, Yahweh fez questão de se revelar a ele mostrando a impotência da religião egípcia. Diversos textos egípcios falam do “braço forte” de faraó, mas ironicamente o Deus hebreu usa essa expressão para falar do Seu poder. Por meio de um simples cajado de pastor Ele fez Seus grandes atos na terra do Egito, não com os cetros carregados de simbolismo e poderes mágicos usados pelo faraó. Nessa guerra entre Deus e um rei com complexo de divindade, faraó finalmente descobriu quem era Yahweh.

Numa era marcada pela mesma arrogância faraônica diante da existência de Deus, a história da libertação dos israelitas do Egito é um constante lembrete para nossa geração do perigo da exaltação do poder e da capacidade humanos. Ao invés de “Deuses e Reis”, a história bíblica é entre um Deus e um rei arrogante. Verseginassi diz ser grato aos israelitas pelas grandes histórias e pelos filmes. Creio que a história do Êxodo nos oferece algo mais importante para sermos gratos. Ela nos lembra da inutilidade do orgulho humano diante de um Ser mais poderoso.

(Luiz Gustavo Assis é teólogo e doutorando em Bíblia Hebraica, pastor da Igreja Adventista de Anaheim, Califórnia; texto produzido com exclusividade para o blog http://www.criacionismo.com.br)

O parto “mais antigo do mundo”

Um grupo de cientistas australianos descobriu um fóssil de placodermo de 380 milhões de anos [sic] prestes a dar à luz. Os exemplos existentes de fósseis de animais no momento de procriar são extremamente raros, e este novo espécime retrocede em 200 milhões de anos [sic] a data recorde de um nascimento de que se tem conhecimento.

No espécime encontrado, observa-se um embrião ligado ao cordão umbilical de sua mãe, o que parece indicar uma nova espécie em si mesma. A descoberta, publicada em uma edição de 2008 da revista científica Nature, mostra uma biologia reprodutiva avançada, comparável a de alguns tubarões e raias de nossa época.

Os placodermos, extintos há muito tempo, eram um grupo amplo e diverso de peixes, que os cientistas consideravam como os vertebrados mais primitivos dotados de mandíbulas. No entanto, os fósseis encontrados pelo cientista John Long e seus colegas revelam que essas espécies não eram tão primitivas como para não poder gerar crias.

A descoberta pertence à Formação Gogo, na Austrália, e representa uma nova espécie de placodermo preservada no momento do nascimento.

(G1 Notícias)

Nota: Duas coisas: (1) as evidências de sepultamento repentino por lama (o que possibilita a fossilização) são cada vez mais abundantes; (2) as pesquisas e descobertas têm demonstrado que já no “início da vida” os seres vivos eram dotados de complexidade espantosa e irredutível. Ou os evolucionistas jogam a idade da Terra mais para trás do que já fizeram, ou terão que admitir a ideia absurda de que a vida já “surgiu” com toda a complexidade necessária. Que sinuca, não? [MB]

Leia também: “Árvore da Vida” de Darwin sofre ataque na base

Ciência e religião na visão de Futuyma

O jornal Estadão publicou em 2008 uma entrevista com o biólogo norte-americano Douglas Futuyma, que foi presidente da Sociedade Americana para o Estudo da Evolução e editor da revista científica especializada Evolution. Ele é autor, entre outros livros, de Science on Trial: The Case for Evolution (Ciência em Julgamento: O Caso em Favor da Evolução), sobre o embate entre o ensino da evolução e do criacionismo, e de Biologia Evolutiva, uma das principais obras usadas no ensino da evolução nos cursos universitários brasileiros de Biologia. Naquele ano, Futuyma esteve no Brasil para uma série de três palestras da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A seguir, alguns trechos da entrevista com meus comentários entre colchetes:

Como está a teoria da evolução hoje, 150 anos depois de sua formulação inicial?

Mais forte que nunca. … [No] tempo de Darwin … não sabíamos sobre DNA, sobre genes, não sabíamos como as características passavam dos pais para filhos. Agora, usamos DNA para entender melhor a evolução, e a evolução para entender melhor o funcionamento dos genes. Outro exemplo: Darwin sugeriu, em 1866, que humanos e chimpanzés vinham de um ancestral comum e agora sabemos, graças ao DNA, que ele estava certo, porque o DNA humano e dos chimpanzés coincide em mais de 90%.

[Com todo respeito a Futuyma, a quem considero um cientista bem mais equilibrado que o estridente Richard Dawkins, por exemplo, essa história dos 90% de semelhança genética entre humanos e chimpanzés é bastante controversa. O que ocorreu foi que a equipe de pesquisadores, dirigida por Morris Goodman, da Faculdade de Medicina da Wayne State University, comparou 97 genes de seres humanos, chimpanzés, gorilas, orangotangos e camundongos. Os pesquisadores concluíram que os genes de chimpanzés e bonobos (gênero Pan) têm mais em comum com os genes humanos do que com os de quaisquer outros primatas. Dificilmente esses dados seriam suficientes para sustentar uma conclusão tão radical. Os pesquisadores compararam apenas 97 genes, porém o genoma humano (que foi mapeado em sua totalidade de uma maneira muito “geral”) tem pelo menos 30 mil genes – portanto eles compararam apenas 0,03 por cento do total! Além disso, os genomas dos primatas não foram nem sequer mapeados de maneira aproximada. Assim, qualquer tentativa de comparar o DNA total atualmente é apenas uma hipótese. Como, de fato, os chimpanzés são mais semelhantes aos seres humanos do que outros macacos ou símios, por que isso não se refletiria em alguns de seus genes? Não é surpresa que a anatomia parecida refletisse genes parecidos, porém isso nada tem a ver com a origem das semelhanças, seja no nível anatômico, seja no nível genético. A questão da ancestralidade comum versus projeto comum não se decide pelo grau de semelhança. O problema é que, embora equivocado, o número de 90% chama a atenção. O público em geral é levado a interpretar as reportagens como tendo dito que os chimpanzés são “90% humanos”. Aqui é bom lembrar o que disse o professor evolucionista Steven Jones: ele afirmou que as bananas compartilham 50 por cento de seus genes com os seres humanos, mas que isso não torna as bananas 50 por cento humanas! E sobre a tal ancestralidade comum entre humanos e macacos, é bom lembra, também, que a tal “árvore da evolução humana” vive sendo revisada e “ancestral” comum nunca foi encontrado.]

Críticos da evolução costumam dizer que a teoria é um raciocínio circular, já que afirma “a sobrevivência dos mais aptos”, mas o único jeito de saber quem é mais apto é esperando para ver quem sobrevive…

Não se trata de um argumento forte. Os críticos dizem que só dá para saber quem é o mais apto depois que ele sobrevive. Mas sabemos que é possível um tipo de indivíduo ser mais abundante na espécie, mesmo se não for o mais apto. Esse é um processo puramente aleatório, de variação dos genótipos (seqüências de DNA) dentro das populações. É um processo chamado deriva genética. E não é um processo de seleção natural. Se você olhar para duas populações que começaram do mesmo jeito, uma delas poderá acabar diferente, por puro acaso, como num lance de dados. Isso elimina o argumento de que se trata de um raciocínio circular. Além disso, é possível prever qual organismo se sairá melhor num determinado ambiente. Em praticamente toda edição da revista Evolution há um exemplo do tipo, onde pegamos uma característica de um organismo, prevemos como ela pode ajudar a sobrevivência em um determinado ambiente, e depois vemos que esse é exatamente o caso. Não é preciso ser um gênio para entender que se há dois tipos de bactéria, e um deles é capaz de digerir uma substância e outro, não, se você colocá-los num ambiente com esse produto, um vai ganhar e o outro vai perder. Isso é evolução por seleção natural, e podemos prever seu resultado.

[Aqui está um clássico exemplo da frase que diz: “Darwin acertou no varejo e errou no atacado.” Os criacionistas (pelo menos os bem informados) não dizem que Darwin errou de todo. A idéia da seleção natural explica bem a existência e prevalência de certos seres vivos em detrimento de outros, mas não explica a origem desses seres. O que se condena são as extrapolações hipotéticas feitas com base nesses dados, como a da ancestralidade comum de todos os seres vivos.]

Também há quem diga que não é possível testar a evolução, para saber se ela está certa ou errada.

Isso também é falso. Vamos pegar a questão da evolução no esquema mais amplo, que é a proposição de que todos os organismos evoluíram, por descendência com modificações, de um ancestral comum. Eu e as árvores lá fora, e as bactérias em meu aparelho digestivo, todos viemos de uma única forma de vida ancestral que deu origem a toda a variedade atual. Isso ocorreu ao longo do tempo, a um ritmo determinado, é claro. Não dá para tirar um mamífero de uma bactéria de uma hora para a outra, deve haver passos intermediários. Então, entendemos que as formas de vida mais recentes não podem ter ocorrido muito cedo na história da evolução. Portanto, se você conseguisse encontrar fósseis de mamíferos, indisputáveis, de 400 milhões de anos, isso causaria muita dor e sofrimento, porque os biólogos diriam “não pode ser”. Então, essa é uma observação possível, um teste, que forçaria a uma revisão completa da teoria da evolução.

[Tudo bem que ainda não foi encontrado um fóssil de mamífero em extratos geológicos nos alegados 400 milhões de anos. Mas, como o próprio Futuyma admite: “Não dá para tirar um mamífero de uma bactéria de uma hora para a outra, deve haver passos intermediários.” O que dizer, então, da “explosão cambriana”? Um trilobita, por exemplo, era quase tão complexo quanto um mamífero. Pelo menos em nível bioquímico, era. Ele era pluricelular (e suas células possuíam toda complexidade para funcionar como as células atuais), se reproduzia sexualmente (com toda complexidade envolvida nessa forma de reprodução) e tinha até olhos de calcita. O problema (para o modelo evolucionista defendido por Futuyma, é que não existem “passos interemediários” de trilobitas no Pré-cambriano…]

O debate entre evolução e criacionismo, se evolução deve ser ensinada nas escolas, se o criacionismo deveria ser ensinado por professores de ciências, causa muita polarização, muita polêmica, desencadeia discussões apaixonadas. A evolução parece ser o único tema, no currículo de ciências, a provocar reações tão extremas. Por quê?

É precisamente porque as pessoas resistem muito à idéia de que surgimos por meio de um processo puramente material, a partir de outras formas de vida. É uma idéia que preocupa. É vista como uma ameaça à dignidade humana, talvez. E também uma ameaça às crenças religiosas, porque as crenças religiosas dizem que os seres humanos são muito especiais, foram deliberadamente criados por um Criador bondoso que se importa com elas. Enquanto que a explicação científica para a origem dos seres humanos entra em conflito com esse ponto de vista. Creio que é por isso que a evolução causa uma reação tão emocional.

[Aqui, o biólogo cai no lugar comum de polarizar a questão como sendo ciência versus religião, ignorando o fato de que muitos cientistas que se pautam pelo método científico discordam das premissas básicas extrapolativas do darwinismo. Mas Futuyma está certo quando afirma que a visão darwinista rebaixa o ser humano. Na verdade, como disse alguém, essa visão humaniza os macacos e “macaquiza” o ser humano.]

Mas essa ameaça é real? O sentimento humano de ser protegido por um Criador onipotente está mesmo sob ameaça da teoria da evolução, ou se trata de um mal-entendido?

Creio que é possível aceitar a evolução totalmente e, ao mesmo tempo, preservar crenças religiosas e teológicas. E digo isso porque há milhões de pessoas que fazem isso. Incluindo inúmeros cientistas, que aceitam a religião, têm sentimentos religiosos, e aceitam as evidências a favor da evolução, incluindo a evolução da espécie humana. Um de meus melhores alunos de doutorado, que hoje é um biólogo evolucionista muito produtivo, é católico devoto e praticante. O papa anterior (João Paulo II) escreveu um documento dizendo que a evidência a favor da evolução é tão forte que a teoria deveria ser aceita como mais que pura especulação. No entanto, o papa disse que isso não significa que existe uma explicação biológica para a parte mais íntima do ser humano, a alma. Ele reserva uma parte para a religião. Creio que muitos líderes religiosos, e muita gente religiosa, não têm problema nenhum com a evolução. A Igreja Católica tem aceito a evolução há muito tempo. No entanto, é claro que isso significa que há certas afirmações específicas na Bíblia que não são literalmente compatíveis com a evolução. Mas também não são compatíveis com física, geologia, ou astronomia, ou nenhuma das outras ciências. Se você acredita que o mundo foi criado em seis dias, ou se acredita que o mundo foi criado há 100.000 anos, isso não é aceitável para astrônomos, geólogos ou físicos. Você tem de estar preparado para reinterpretar os textos religiosos, o que é exatamente o que os teólogos fazem. Bons teólogos não acreditam que tudo que aparece escrito nas versões em inglês, em português ou espanhol da Bíblia é para ser tomado exatamente como verdade literal.

[O papa João Paulo II estava duplamente errado: o ser humano não possui alma; ele é uma alma (nephesh = ser vivente), segundo a descrição bíblica da criação, em Gênesis. Essa idéia dualista (corpo/alma) é de origem pagã e foi adotada pelo catolicismo há muito tempo. E o papa estava errado também em tentar conciliar a Bíblia com o darwinismo. Isso é impossível para aqueles que aceitam o princípio protestante do Sola Scriptura. (Clique aqui e saiba por quê.) Curiosamente, as ciências que foram “infectadas” pela visão evolucionistas acabam entrando em atrito com as Escrituras, como é o caso da Geologia e sua “geocronologia padrão”. Por outro lado, diversos fatos corroborados pela ciência experimental estão em perfeito acordo com a Bíblia. No fim de sua resposta, Futuyma revela sua visão teológica liberal, elogiando os teólogos que não aceitam as Escrituras como “verdade literal”. Reinterpretar ou relativizar a Bíblia quando diante de alguma teoria discrepante torna fácil acomodar a religião à ciência…]

Mas as religiões pararam de perseguir astrônomos há séculos, enquanto que professores de biologia ainda encontram problemas. A resistência às novas verdades científicas que vêm da biologia é maior por quê…?

É por causa do conteúdo emocional, eu acho. As pessoas não se preocupam muito se a física entra em conflito com a Bíblia, mas creio que, porque são humanas, elas se preocupam com a biologia. Mas eu gostaria de destacar que são apenas algumas lideranças religiosas, e algumas pessoas religiosas, que condenam a evolução. Nos países onde a maioria da população é católica, como Espanha, Portugal, ou na maior parte da América Latina, não há conflito. O conflito surge onde há versões fundamentalistas do cristianismo, que tomam a Bíblia literalmente.

[Ou seja, os que adotam a teologia liberal não vêem contradição entre o darwinismo e a Bíblia. O problema são os “fundamentalistas”…]

Futuyma prossegue: “[Q]uando se propõe que a ciência aceite explicações religiosas, aí você tem idéias que não podem ser testadas. Ao postular que algo foi causado por um ser sobrenatural, ninguém tem a menor idéia de como determinar se essa é uma explicação verdadeira ou falsa. E se você pode dizer que um ser sobrenatural é responsável por esse evento em particular, por exemplo, a origem dos seres humanos, então você pode dizer que ele é responsável por tudo, pelo terremoto que aconteceu na China. Gostaríamos de parar de tentar entender os terremotos, porque alguém disse que há uma causa sobrenatural? A ciência tem de se manter materialista em suas explicações, o que não significa que a visão de mundo do cientista tenha de ser materialista. O materialismo não cabe quando o assunto é amor, ou ética, mas quando tentamos entender o mundo natural, é essencial.”

[O biólogo acerta quando diz que a ciência tem que ser materialista, enquanto metodologia, mas isso não significa que o cientista tenha que adotar uma filosofia materialista que nega tudo que esteja fora do escopo e da mensuração científica. Mas ele também “embola” tudo quando fala do terremoto na China. Aqui nota-se como faz falta uma correta compreensão da teologia bíblica…]

Se o Brasil vier a viver uma radicalização como a que existe nos EUA em torno do ensino da evolução e do criacionismo, qual seria seu conselho aos cientistas e professores brasileiros?

Meu conselho seria que os cientistas venham a público, que tentem educar a população sobre essas questões. Eles têm de tentar explicar a diferença entre uma abordagem científica e uma abordagem não científica. Eles têm de tentar explicar às pessoas que dependemos da ciência para avanços tecnológicos com muitos resultados práticos. … É preciso que todos os cientistas tentem explicar às pessoas qual é a natureza da ciência, e manter a ciência separada da religião. Não para fazer pouco caso da religião. As pessoas têm sua liberdade de crença religiosa, mas precisam entender que isso tem de ficar do lado de fora da aula de ciências. Assim como a ciência deve ficar fora dos ensinamentos das igrejas sobre moralidade. Creio, ainda, que os cientistas devem fazer todo o esforço para contestar as alegações feitas por criacionistas. Então, se houver algum criacionista, algum defensor do design inteligente (movimento que propõe que a vida é complexa demais para ter surgido por meios estritamente naturais), alguma figura religiosa que vá à televisão para fazer alegações falsas sobre a evolução, então os cientistas devem procurar o canal de TV, a revista, ou o veículo que for, e dizer, não, isso é errado, não é o que entendemos do ponto de vista científico, e aqui está o que é correto, e eis o porquê.

[Futuyma não precisa se preocupar com isso. Como escreveu G. K. Chesterton, há cem anos, em seu livro Ortodoxia, “não será necessário que ninguém lute contra a censura da imprensa. Nós temos a censura pela imprensa”. Como? Apenas um exemplo: o articulista Marcelo Leite, da Folha de S. Paulo, disse certa vez que eles simplesmente não dão espaço aos criacionistas. Futuyma se preocupa com possíveis alegações falsas de criacionistas na mídia, mas o que dizer das muitas alegações falsas sobre o criacionismo que já foram publicadas por aí? Não se preocupe, Futuyma, a maré midiática não está a favor dos “fundamentalistas”.]

E o biólogo conclui: “Minha mensagem para os cientistas, então, seria: reconheçam a humanidade das pessoas. Tentem mostrar a elas que é possível conciliar o ponto de vista científico com o religioso, em vez de criar uma dualidade. Mas é claro que muitos religiosos, principalmente evangélicos fundamentalistas, insistem nessa dualidade. Insistem que é preciso escolher.”

[Isaac Newton era “fundamentalista” (até cria nas profecias de Daniel e Apocalipse, veja só!) e, juntamente com outros “fundamentalistas” como Galileu e Copérnico, nos legou o método científico. Eles, assim como os criacionistas bem informados de hoje, não propõem o dualismo ciência/religião ou que tenhamos que escolher entre uma ou outra. Propõem, sim, uma correta interpretação dos dados científicos e uma correta interpretação das Escrituras. Esse esforço trará a devida compatibilização de ambas as áreas, afinal, foi Deus quem as estabeleceu.]

[Deixo um último desfio para o Futuyma e os leitores darwinistas deste blog: O que as evidências contrárias à teoria da evolução significam num contexto de justificação teórica? Que tal abordá-las se atendo somente ao atual status epistêmico da teoria da evolução?]

Leia também: “Futuyma se esqueceu da teoria da evolução no contexto de justificação teórica”

Além do laboratório: ciência e misticismo

Em sua obra polêmica O Fim da Ciência, o jornalista científico John Horgan entrevista dezenas de cientistas e pensadores, em busca de respostas para uma série de perguntas sobre o futuro da ciência. Mas, no fundo, o que Horgan procura é o Absoluto (confessa mesmo ter passado, ainda nos tempos de estudos literários, por uma “experiência mística”).

Pode parecer estranho Horgan procurar na ciência o que deveria buscar na teologia. Mas ele não é o único pesquisador que tem buscado o transcendente. O físico Marcelo Byrro Ribeiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, arrisca um palpite para o porquê desse interesse. Ele acredita que as leis da ciência [humana] são limitadas e incapazes de explicar de maneira completa a constituição e o surgimento do Universo. Elas se sustentam porque explicam melhor um conjunto de fenômenos, e não como evidências absolutas. Nesse sentido, acredita o físico, a ciência presta um desserviço a si própria quando afirma possuir a resposta para tudo.

De fato, a despeito do enorme avanço da ciência e da tecnologia, quando o assunto são as questões fundamentais como a origem da vida e do Universo, grandes e persistentes interrogações se sobrepõem às tentativas de explicação.

A ORIGEM DA VIDA: ENIGMA PERSISTENTE

Depois de quase um século e meio, os defensores da teoria da evolução biológica continuam se debatendo com problemas gigantescos. Tanto que o prêmio Nobel Francis Crick, depois de identificar a molécula de DNA, chegou a uma espantosa conclusão: “Parece ter sido quase um milagre, tantas são as condições necessárias para que a vida viesse a ocorrer.” Vinda de um agnóstico com tamanho conhecimento da biologia, essa declaração dá uma boa medida da dificuldade que a ciência ainda enfrenta para explicar essa origem.

Para o ex-ministro da Educação José Goldemberg (O Estado de S. Paulo, 19/10/99), os cientistas “estão encontrando problemas tais em entender o Universo e sua origem que alguns julgam que há lugar para um Deus em seus estudos”.

E talvez pelo fato de a ciência não ter todas as respostas é que, séculos depois de Galileu e outros terem desafiado os dogmas da Igreja Católica e o astrônomo francês Pierre Laplace ter descartado Deus como hipótese necessária para explicar o Universo, cientistas como o físico americano Charles Townes (premiado com um Nobel em 1964 pela invenção do laser) estão aceitando a crença cristã da criação do mundo. “É como se as descobertas mais recentes aumentassem a percepção de que o Universo e a vida constituem algo especial”, diz o físico.

Essas muitas perguntas sem resposta no mundo da ciência geram dois tipos de problema. De um lado, aparecem as evidências fraudulentas, como que indicando uma vontade imensa de confirmar teorias. De outro, abre espaço para os místicos introduzirem suas ideias, na tentativa de explicar o que ainda não se pode provar.

DOS LABORATÓRIOS AO MISTICISMO

Para muitos cientistas, seria necessário fazer valer a paráfrase: “Dê a Deus o que é de Deus e aos laboratórios o que é dos cientistas.” Mas nem sempre é assim. Cada vez mais as limitações da ciência abrem espaço para a ala que aceita o transcendente. É bem verdade que muitos pesquisadores, quando usam o nome de Deus, estão muito mais se valendo de uma metáfora de entendimento imediato do que reverenciando uma figura religiosa. Mesmo os que aceitam Deus, o veem como um conceito abstrato ou uma forma de energia impessoal, semelhante ao que defendem os adeptos da Nova Era.

Entre eles, estão campeões de publicidade como o físico Fritjof Capra, autor do best-seller mundial intitulado O Tao da Física. Capra nasceu em Viena, em 1939. Lá, formou-se em Física Teórica. Como cientista vem tentando estabelecer paralelos entre a física e o misticismo. Em seu livro mais famoso (O Tao da Física), Capra tenta construir uma ponte entre as percepções da mecânica quântica e as das filosofias orientais. Com o estudo do átomo e de suas estruturas, “a ciência ultrapassou os limites de nossa capacidade de percepção sensorial. A partir daí ela não pode mais confiar de forma absoluta na lógica e na razão”, escreveu Capra.

Esse posicionamento de Capra – com excesso de misticismo e contestação da racionalidade – não agrada nem um pouco aos cientistas mais “ortodoxos”, pois fere as bases da ciência experimental. Na opinião do cosmólogo Stephen Hawking, “cientistas de valor deixaram de pesquisar para tentar chegar à verdade pela meditação oriental. Não produziram mais nada. Esterilizaram-se completamente”.

“Você deve duvidar seriamente de qualquer cientista que tente convencê-lo, baseado em argumentos científicos, da futilidade de sua crença religiosa”, escreveu Marcelo Gleiser, em seu livro A Dança do Universo, página 348 (Companhia das Letras). Mas, pelo jeito como as coisas vão, devemos duvidar também dos cientistas que querem fazer a ponte entre ciência e misticismo.

ARMADILHA BEM BOLADA

Para o observador atento e conhecedor das Escrituras Sagradas, salta aos olhos o plano bem elaborado que se revela por trás da aproximação entre a ciência e o misticismo. Basta analisar as seguintes perguntas: De quem é o interesse de que as pessoas se afastem da verdadeira ciência e busquem o misticismo como resposta às suas dúvidas? Quem está interessado em que o ser humano creia que pode se autorredimir por meio da “evolução espiritual”, e que o pecado é uma ilusão judaico-cristã?

Satanás, o inimigo de Deus, desde o início do mundo vem contestando a forma como o Criador rege o Universo. Desde que perdeu sua posição de anjo mais exaltado no Céu, tenta envolver os seres humanos em sua rebelião, obscurecendo nas mentes a ideia da criação divina e da redenção em Cristo. A teoria da evolução biológica e o misticismo que tem por base a doutrina da reencarnação são suas armas mais eficazes. Com o evolucionismo vieram as dúvidas sobre a criação narrada em Gênesis e houve grande força para o argumento ateísta. E já que Deus “estava morto”, passou-se a ver a ciência humana como fonte de esperança. O plano estava correndo a contento.

Os anos passaram e, aos poucos, as pessoas perceberam que a ciência humana não era esse “deus” tão poderoso. Até mesmo o ateísmo, como instituição, ruiu. E quem poderia ocupar a brecha? A segunda arma satânica: o misticismo. Rendidos à evidência do sobrenatural, muitos cientistas passaram a aceitar e defender ideias que nada têm que ver com os domínios da ciência, e tampouco com o que ensina a Bíblia. A armadilha se fechou.

Por isso, o conselho do apóstolo Paulo ao jovem Timóteo ainda vale: “Guarda o depósito, evita o palavreado vão e ímpio, e as contradições de uma falsa ciência” (1 Timóteo 6:20, Bíblia de Jerusalém). “Falsa ciência” e “falsa religião” (misticismo), na verdade, só servem para afastar os seres humanos de Deus. Por outro lado, a verdadeira ciência e a religião bíblica devem apontar para o Criador pessoal. O único que pode trazer sentido à vida e fornecer aquelas respostas que satisfazem o coração.

EVIDÊNCIAS FRAUDULENTAS

Elo perdido – O Archaeraptor liaoningensis, fóssil considerado uma importante evidência da teoria de que os pássaros teriam se desenvolvido dos dinossauros, era, na verdade, uma mistura de fósseis de duas criaturas diferentes. A revista National Geographic chegou a colocar na capa de uma de suas edições a recriação artística do animal e deu-lhe crédito como o elo perdido entre répteis e aves.

Dinossauro de araque – Um esqueleto de dinossauro exposto havia 116 anos no Museu Nacional do País de Gales era falso. O esqueleto, que seria de um Ichthyosaurus foi montado com diversos tipos de ossos, gesso e tinta.

Múmia falsa – Uma múmia com vestes em estilo egípcio e repousando em caixão de madeira com escrita cuneiforme foi tida como uma princesa que viveu em 600 a.C. Exames revelaram que se tratava do corpo de uma mulher mumificada havia apenas dois anos, e já em estado de decomposição.

CIÊNCIA EXPERIMENTAL X MISTICISMO “CIENTÍFICO”

“Nem a Matemática nem a Ciência podem descobrir Deus pelo simples fato de que estas duas conquistas do intelecto humano agem no imanente e jamais poderiam chegar ao Transcendente”, disse o ex-presidente da Federação Mundial de Cientistas, Dr. Antônio Zichichi, em seu livro Por Que Acredito Naquele que Fez o Mundo, página 16 (Editora Objetiva). Para se fazer pesquisa científica, é preciso levar em conta os seguintes aspectos:

1. As evidências devem ser testadas em laboratório.
2. Os experimentos devem ser reproduzíveis.

A crença em Deus, o ateísmo ou as filosofias místicas, portanto, não pertencem aos domínios da pesquisa científica. Estão na área do transcendental e, assim, não podem ser provadas nem refutadas do ponto de vista científico.

(Michelson Borges é jornalista, mestre em Teologia e pós-graduado em Biologia Molecular)

Nova edição do livro A Caixa-Preta de Darwin

Vinte anos atrás eu li um livro que causou profundo impacto em minha mente recém-convertida ao criacionismo: A Caixa Preta de Darwin, do bioquímico norte-americano Michael Behe. Dez anos depois, publiquei no blog Criacionismo uma resenha da obra (leia logo abaixo do vídeo). Depois da primeira edição (1996), sucesso de vendagem e de público, a editora Jorge Zahar não quis produzir uma segunda tiragem, e a obra ficou esgotada desde então. Por isso, a notícia de que a editora Mackenzie estava preparando uma segunda edição ampliada do clássico de Behe me deixou muito feliz. E finalmente o livro voltou! Leia a apresentação que consta no site da editora:

“Em 1996, A Caixa Preta de Darwin lançou ao mundo a Teoria do Design Inteligente: o argumento de que a natureza exibe evidências de design que vão muito além do acaso darwinista. O livro catalisou um debate bastante acalorado sobre a evolução, que continua cada vez mais a se intensificar nos Estados Unidos e no mundo, incluindo o Brasil. Em um amplo espectro científico, a obra se estabeleceu como o texto básico e fundamental do design inteligente (DI), o argumento que precisa ser considerado para determinar se a evolução, segundo propôs Darwin, é mesmo suficiente para explicar a vida da forma que hoje a conhecemos. No posfácio da edição comemorativa do 10º aniversário do livro, Behe explica como a complexidade descoberta por microbiologistas cresceu drasticamente desde a publicação de seu livro e como essa complexidade irredutível tem sido um desafio contínuo ao darwinismo, que, sistematicamente, tem falhado em explicá-la. No posfácio comemorativo desta edição de 2019, Behe reforça o poder crescente de seus argumentos – tão atuais e devastadores em 2019 quanto eram em 1996 – e comemora o crescimento do DI no Brasil e no mundo. A Caixa Preta de Darwin é histórico, indispensável e ainda mais importante hoje do que era em 1996!

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“O desafio da Bioquímica à Teoria da Evolução”. Esse é o subtítulo de um livro publicado pelo professor de bioquímica da Universidade Lehigh (Pensilvânia, EUA), Michael Behe: A Caixa Preta de Darwin (Jorge Zahar Editor, 1997). Nele, o autor desafia a teoria da evolução com o que chama de sistemas de complexidade irredutível.

Usando como exemplo desses sistemas a visão, a coagulação do sangue, o transporte celular e a célula, Behe demonstra convincentemente que o mundo bioquímico forma um arsenal de máquinas químicas, constituídas de peças finamente calibradas e interdependentes. Para que a teoria da evolução fosse verdade, deveria ter havido uma série de mutações, todas e cada uma delas produzindo sua própria maquinaria, o que resultaria na complexidade atual.

Mesmo não sendo um criacionista, o professor Michael Behe argumenta que as máquinas biológicas têm que ter sido planejadas – seja por Deus ou por alguma outra inteligência superior.

Para ilustrar suas idéias, ele usa a analogia da ratoeira: “Suponhamos, por exemplo, que queremos fabricar uma ratoeira. Na garagem, podemos ter uma tábua de madeira velha (para a plataforma ou base), a mola de um velho relógio de corda, uma peça de metal (para servir como martelo) na forma de uma alavanca, uma agulha de cerzir para segurar a barra, e uma tampinha metálica de garrafa, que julgamos poder usar como trava. Essas peças, no entanto, não poderiam formar uma ratoeira funcional sem modificações excessivas e, enquanto elas estivessem sendo feitas, as partes não poderiam funcionar como ratoeira. Suas funções anteriores as teriam tornado impróprias para quase qualquer novo papel como parte de um sistema complexo.”

O autor complica ainda mais as coisas para o darwinismo ao perguntar: como se desenvolveu o centro de reação fotossintético? Como começou o transporte intramolecular? De que modo começou a biossíntese do colesterol? Como foi que a retina passou a fazer parte da visão? De que maneira se desenvolveram as vias de sinalização da fosfoproteína?

“O simples fato de que nenhum desses problemas jamais foi tratado, para não dizer solucionado”, conclui Behe, “constitui uma indicação muito forte de que o darwinismo é um marco de referência inadequado para compreendermos a origem de sistemas bioquímicos complexos”.

Quando o livro Origem das Espécies foi publicado, no século passado, os pesquisadores não imaginavam a enorme complexidade dos sistemas bioquímicos. Esse campo foi aberto em nosso século, quando Watson e Crick descobriram a forma de hélice dupla do ADN (ácido desoxirribonucléico), revelando os segredos da célula. Com isso, os bioquímicos vislumbraram um mundo de cuja complexidade Darwin nem sequer suspeitava.

O lado mais infeliz disso tudo, diz Behe, é o fato de que “numerosos estudantes aprendem em seus livros a ver o mundo através de uma lente evolucionista”, mas “não aprendem como a evolução darwiniana poderia ter produzido qualquer um dos sistemas bioquímicos notavelmente complicados que tais textos descrevem”.

A raiz do preconceito de alguns para com a religião remonta ao século 19, quando o clima do racionalismo e do materialismo acabou implantando uma nova ordem social. As pessoas estavam saturadas de tradicionalismo. Naquele momento, só lhes interessavam novidades, não importando seu fundamento. Assim, o pensamento evolucionista acabou se infiltrando nas demais ciências, e vem sendo amplamente difundido nas escolas e nos meios de comunicação.

Segundo Michael Behe, “a compreensão resultante de que a vida foi planejada por uma inteligência é um choque para nós no século 20, que nos acostumamos a pensar nela como resultado de leis naturais simples”. Porém, ele lembra que outros séculos “também tiveram seus choques, e não há razão para pensar que deveríamos escapar deles”. É tempo de abrir a caixa-preta de Darwin.

(Michelson Borges é pastor e jornalista, pós-graduado em Biologia Molecular)