Quando a Justiça vai contra a Ciência

Uma postagem na internet, que associava a diabetes a parasitas no pâncreas, virou caso de Justiça em São Paulo. Tudo começou quando o nutricionista Andre Luis Lanca, que se denomina “Dr Lanza” nas redes sociais, defendeu desparasitação como tratamento para a síndrome metabólica. Fundadoras do canal de divulgação científica “Nunca vi 1 cientista”, a bióloga Ana Bonassa e a farmacêutica Laura Marise foram condenadas na 1ª Vara do Juizado Especial Cível do estado depois de refutarem a tese do profissional de saúde.

O judiciário paulista condenou as cientistas, em primeira instância, por danos morais. Na sentença, a juíza responsável pela causa alega que as duas devem indenizar Lanca em R$ 1 mil, além de retirar do ar o conteúdo em que o contradiziam.

Em junho de 2023, as pesquisadoras veicularam um “vídeo informativo”, segundo a sentença, nos perfis que mantêm nas redes. Na gravação, Ana explicava o que era a doença e afirmava, “com todas as letras”, que “diabetes não é causada por verme”.

Para a magistrada, o nutricionista foi submetido a “vergonha e tristeza” e teve os dados de sua antiga conta pública no Instagram divulgados “sem autorização” em “rede social de amplo alcance”.

Mais do que isso, consta no documento que a atitude resultou em uma “mancha” na imagem de Andre e, consequentemente, em prejuízos “na venda de seus serviços”.

Entenda o caso

No ano passado, Andre republicou em sua página no Instagram um vídeo do terapeuta holístico Jaime Bruning. Nas imagens, Bruning declarava que as causas da diabetes “são vermes que atacam o pâncreas”.

Junto ao post, Lanca escreveu: “diabetes é verme” e “digite ‘quero’ para conhecer nosso programa completo de desparasitação”. Na legenda, um segundo texto recomendava: “A desparasitação natural mata mais de 100 tipos de vermes, eliminando toda e qualquer possibilidade de doenças! Conheça nosso protocolo e apaixone-se.”

Pouco tempo depois, o “Nunca vi 1 cientista” também lançou um vídeo, em que Ana Bonassa usava como ponto de partida a publicação feita pelo profissional de nutrição

“Esse cara [Andre] bloqueou a gente, porque eu fui lá avisar que o que ele está espalhando é mentira”, contava a bióloga logo nos primeiros segundos, em referência a um comentário feito na postagem de Lanca.

Na sequência, a especialista afirmava que “muitos outros canais” estavam “espalhando a mesma mentira” com o intuito de comercializar protocolos de desparasitação, motivo que a levava a alertar a audiência. Nas redes, ela e Laura acumulam mais de 870 mil seguidores combinados.

“Diabetes é basicamente um problema na sua insulina, que é uma chave que não consegue abrir a porta das células do seu corpo para o açúcar entrar nelas e ser usado como energia”, descrevia a estudiosa.

Ao longo dos quase dois minutos de filmagem, ela não só criticava que fossem estabelecidas relações entre a doença metabólica e os vermes, como detalhava o que pode originar a diabetes e quais os danos dela à saúde.

“É um problema na ação e na quantidade de insulina, ou até ambos. E a consequência é o aumento do açúcar no sangue. Isso causa uma série de problemas, como amputações de membros, cegueira, doença no rins, problema no coração e pode levar à morte. E o que causa isso? São vários fatores, desde a sua genética até o seu estilo de vida. Mas nenhum desses fatores é verme”, reiterava.

Para exemplificar a gravidade da situação, Ana citava um episódio narrador por um seguidor. “Minha mãe acreditou nisso. Eu não consegui convencer minha mãe que não era verdade. A diabetes evoluiu muito e complicou a saúde dela. Poucos meses depois, ela faleceu”, dizia a mensagem recebida pela bióloga.

“Eu sou doutora pela USP, cientista há 16 anos e também divulgadora científica. E eu estou aqui para ajudar vocês a não passarem pelo que esse moço passou. Ele perdeu a mãe, porque ela abandou o tratamento de diabetes e acreditou em protocolo de desparasitação”, advertia Ana nas imagens.

Por fim, Bonassa mencionava que existem vários tratamentos para a diabetes, “que vão ajudar a sua insulina a trabalhar direito, para o açúcar sair do sangue e parar de causar problema”. Apesar disso, repetia a dona do perfil científico, nenhum deles diz respeito à eliminação de parasitas.

“Não existe verme no pâncreas. Se você vir alguém propagando isso, denuncie e bloqueie. Porque isso é desinformação e está chegando forte para vender curso. 100% desses perfis [que estão] falando que doenças são causadas por vermes, estão vendendo curso. Mande esse vídeo para os seus familiares vulneráveis que podem cair em mais esse conto”, recomendava a cientista.

Processo judicial

Juntas, Ana e Laura deram início ao “Nunca vi 1 cientista” em 2018. O projeto de divulgação científica na web, que se limitava ao Facebook e ao Instagram no início da carreira como comunicadoras, foi ganhando visibilidade entre os internautas e se expandiu para outras plataformas.

“O vídeo chegou até a gente por meio dos seguidores, eles nos encaminham muitas coisas”, relembra Marise.

Formada em Ciências Biológicas, Bonassa se dedicou ao estudo da doença no mestrado e no doutorado. Foi a partir dessa bagagem que surgiu a ideia de gravar o conteúdo. “Eu estudei a diabetes academicamente por mais de 16 anos, entendo um pouquinho sobre o tema”, brinca a pesquisadora.

“Primeiro, comentei no perfil dele que aquilo era uma desinformação. Ele apagou o comentário e bloqueou o nosso perfil, nós ficamos sem nenhum tipo de comunicação. Então, resolvi fazer um vídeo explicando o que é a diabetes, quais os perigos de abandonar a medicação e desmitificando o tratamento com vermífugos.”

No dia seguinte, as duas foram surpreendidas como uma notificação extrajudical da equipe jurídica do nutricionista.

“A gente rebateu a intimação com uma contranotificação. Em seguida, ele já entrou com o processo. A gente teve um bom tempo para preparar a defesa. Isso nos levou a pensar que não tínhamos como perder a causa, porque é absurdo do absurdo”, complementa Ana.

Há pouco mais duas semanas, no entanto, a dupla foi avisada de que o pedido de Andre havia sido apreciado pela Justiça, com uma condenação favorável ao nutricionista.

“Apagamos o vídeo original no mesmo dia. Tudo o que comentamos, a partir desse momento, foi uma versão editada, que censura o rosto e os dados dele, porque foi isso que levou a nossa condenação”, justifica a bióloga.

Farmacêutica-bioquímica, Laura conta que não esperavam que o desenrolar dos fatos se desse da maneira como vem ocorrendo e garante que “foi uma grande surpresa”.

— O nosso serviço alertava as pessoas para que elas não caíssem em desinformação. Mas ainda temos a chance de recorrer em segunda instância. Enquanto todos os trâmites do processo tenham sido finalizados, não temos que pagar nada. Nossos advogados estão confiantes que vamos conseguir reverter a decisão — adianta.

Como a colega de trabalho, Ana faz coro ao espanto.

“Nunca imaginei que ele [Andre] iria nos notificar, processar e que, depois, íamos perder o processo. Nós não acusamos ele de nada, não extrapolamos nenhum limite da liberdade de expressão. Também não lucramos em cima disso, o vídeo não teve fins comerciais”, lamenta a bióloga.

Para Laura, a história é “uma inversão de valores”, que ela classifica também como um “duro golpe para a divulgação científica”. A preocupação com que o caso crie precedentes jurídicos diante de situações como essa, assegura, é uma das razões de as duas levarem o fato à público.

“É um precedente extremamente perigoso. Para mim, a frase mais problemática da sentença é a que a juíza diz que o nosso “vídeo informativo” causou prejuízos à venda de serviços dele. Não era essa a ideia? A [ideia] de que a gente expos uma desinformação e um esquema de venda de produtos e protocolos milagrosos, que prejudica a saúde das pessoas. Não era isso que deveria ser valorizado?”

Especializada em Biociências e Biotecnologia aplicada à Farmácia, Laura reforça que foi preciso incluir uma tese cientifica no processo, uma vez que o nutricionista ” tentou sustentar a argumentação de que a diabetes é causada pelo verme”.

“Nós não somos as primeiras, nem seremos as últimas divulgadoras científicas a serem processadas por alguém com ele. Mas falar sobre isso publicamente é importante, para que não se criem jurisprudências que eles vão usar contra todo mundo que tentar desmentir o que eles falam. Isso é muito perigoso, porque todo o combate à desinformação que a gente tenta criar no país vai por água abaixo.”

Ao Tribunal de Justiça de São Paulo, Lanca argumentou que realizou uma denúncia dentro do próprio Instagram em que se opunha “ao uso de sua imagem e dados” na página de Ana e Laura. O pedido, porém, foi negado. Ele acrescenta que, o falecimento citado por Bonassa como exemplo, lhe imputava a “morte de seus clientes e seguidores”.

O nutricionista Andre Luis Lanca e os advogados que o representam no processo foram procurados pela reportagem do GLOBO. Até a publicação desta matéria, não houve respostas. O espaço segue aberto para manifestação.

Entidades se pronunciam

Em conjunto, a Sociedade Brasileira de Diabetes, Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Associação Brasileira de Estudo da Obesidade e o Conselho Federal de Nutrição divulgaram uma nota em que defendem que “diabetes não é causado por vermes”.

O Conselho Federal de Farmácia, por sua vez, demonstrou “perplexidade e preocupação” com o acontecimento e demonstrou apoio nominal as duas profissionais de saúde.

O que causa a diabetes?

O Ministério da Saúde afirma que a diabetes “é uma doença causada pela produção insuficiente ou má absorção de insulina, hormônio que regula a glicose no sangue e garante energia para o organismo”. De acordo com o glossário “Saúde de A a Z”, disponibilizado no site da pasta, “a insulina é um hormônio que tem a função de quebrar as moléculas de glicose (açúcar) transformando-a em energia para manutenção das células do nosso organismo”.

As informações divulgadas pelo ministério apontam ainda que a síndrome metabólica “pode causar o aumento da glicemia e as altas taxas podem levar a complicações no coração, nas artérias, nos olhos, nos rins e nos nervos”. Em casos mais graves, pondera o material, a doença “pode levar à morte”.

A publicação do governo federal descreve que a “diabetes mellitus pode se apresentar de diversas formas e possui diversos tipos diferentes. Independente do tipo de diabetes, com aparecimento de qualquer sintoma é fundamental que o paciente procure com urgência o atendimento médico especializado para dar início ao tratamento.”

Confira a nota das entidades na íntegra:

Em virtude da repercussão a respeito da pretensa informação acerca do diabetes ser causado por vermes, as três Sociedades Científicas – SBD, SBEM e ABESO, bem como o CFN – observaram a necessidade de dar esclarecimentos e orientações sobre o tema, dada sua relevância e impacto na vida da população.

O diabetes é uma doença altamente prevalente, atingindo mais de 537 milhões de indivíduos no mundo segundo a Federação Internacional de Diabetes, sendo 20 milhões de brasileiros acometidos, de acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes. Trata-se de uma condição clínica, crônica e sem cura, que pode ser acompanhada de complicações impactantes, como cegueira, insuficiência renal, amputações de membros inferiores, doenças cardiovasculares, entre outras, levando à mortalidade precoce sobretudo naquelas pessoas com controle inadequado da doença. Portanto, é de suma importância que essas pessoas estejam totalmente engajadas no tratamento adequado.

Têm sido veiculadas matérias na mídia sobre profissionais que defendem a ideia de que vermes estariam envolvidos no surgimento do diabetes, inclusive defendendo e, eventualmente, oferecendo tratamento antiparasitário para suposta cura da doença. Isso é um completo absurdo, sem qualquer embasamento científico. Além de ludibriar a população com informações enganosas, expõem as pessoas com diabetes à possibilidade de abandono dos tratamentos adequados, colocando-as em risco, inclusive de morte.

As Sociedades e o Conselho que aqui assinam este posicionamento reforçam a necessidade de buscar profissionais sérios e comprometidos com a ciência para o tratamento adequado das pessoas com diabetes, evitando práticas oportunistas e equivocadas, muitas vezes visando exclusivamente o lucro em detrimento da saúde desses indivíduos.

Confira a nota do Conselho Federal de Farmácia na íntegra:

O Conselho Federal de Farmácia expressa sua profunda perplexidade e preocupação com a recente condenação em primeira instância das Dras. Ana Bonassa e Laura Marise, responsáveis pelo portal “Nunca Vi 1 Cientista”, conforme amplamente noticiado pelos principais veículos de comunicação. Segundo a compreensão do CFF, o trabalho dessas profissionais, que defendem a Ciência e promovem informações corretas sobre saúde pública, é louvável e essencial para a sociedade.

O CFF acredita que a liberdade de expressão, dentro dos limites legais, é um direito fundamental e que a busca pela verdade científica é um dever de todos os profissionais de saúde. A disseminação de informações incorretas ou não embasadas em evidências científicas sobre questões graves como o diabetes pode ter sérias consequências para a saúde pública.

É importante destacar o papel dos profissionais de saúde na correção de informações errôneas e na promoção da educação em saúde. Ao desmentirem uma postagem que associava o diabetes à presença de vermes, as Dras. Ana Bonassa e Laura Marise estavam cumprindo sua função de maneira ética e responsável.

O CFF considera que ações que impeçam os profissionais de saúde de informar e orientar corretamente a população representam um retrocesso para a saúde pública e um risco para a sociedade, pois podem sinalizar, ainda que não seja essa a intenção, uma tolerância com o obscurantismo e o negacionismo científico.

Diante desse contexto, o CFF:

•⁠ ⁠Manifesta sua solidariedade às Dras. Ana Bonassa e Laura Marise;

•⁠ ⁠Reitera a importância da liberdade de expressão e da busca pela verdade científica;

•⁠ ⁠Reafirma seu compromisso com a promoção da saúde e do bem-estar da população;

•⁠ ⁠Incentiva todos os profissionais de saúde a atuarem com ética e responsabilidade na divulgação de informações sobre saúde.

Esperamos que este caso sirva como um alerta para a necessidade de proteger a liberdade de expressão e o direito à informação, especialmente em questões relacionadas à saúde pública.

(O Globo)

Selo de 2.600 anos: evidência histórica da justiça divina em Jerusalém

Recentemente, o UOL reportou a descoberta arqueológica de um selo (bulla) com 2.600 anos, encontrado em Jerusalém, que traz a inscrição “pertencente a Yeda’yah (filho de) Asayahu” e, surpreendentemente, ainda conserva uma impressão digital – potencialmente do próprio dono. Encontrado por arqueólogos do Temple Mount Sifting Project, esse artefato data do período do Primeiro Templo, na época dos reinados de Josias e sua reforma religiosa.

O nome Asayahu (Asaías) aparece na Bíblia (2 Reis 22:14; 2 Crônicas 34:20) como um dos oficiais enviados por Josias à profetisa Hulda, após o achado do “Livro da Lei”, que anunciava o juízo de Deus por desobediência. A descoberta desse selo – com nome bíblico e possível ligação com a corte real – reforça a veracidade histórica dos relatos bíblicos, evidenciando que as palavras proféticas tinham impacto real na administração do reino. A impressão digital física, intacta por milênios, serve como uma metáfora poderosa: Deus conhece cada um de Seus servos – seus atos e sua identidade.

No contexto criacionista, essa evidência reforça que a Bíblia não é mera literatura, mas um registro histórico confiável, resgatado do caos da terra com precisão divina. Cada selo, cada nome, ressoa uma narrativa espiritual: a justiça de Deus não é abstrata; ela se manifesta em detalhes minuciosos da história terrena. O selo de Yeda’yah nos desafia a considerar que nosso Criador é um Legislador que cumpre Suas promessas – inclusive quando falamos de juízo e restauração. [MB]

Mais sobre arqueologia bíblica (clique aqui).

Onde está Deus em uma equação?

Em 1928, Paul Dirac formulou uma equação que unia relatividade restrita e mecânica quântica. Segundo uma solução de sua equação, uma nova partícula deveria existir. Ela teria propriedades análogas às do elétron, mas com carga oposta – o pósitron – confirmado experimentalmente por Carl Anderson em 1932, a primeira partícula de antimatéria.

A equação de Dirac previu o pósitron antes de qualquer evidência. Ele resumiu esse feito dizendo: “Minha equação é mais inteligente do que eu!” Para Dirac, isso revelava uma verdade matemática presente na própria natureza. Chegou a afirmar: “Deus é um matemático de altíssima ordem, e usou matemática muito avançada na construção do Universo.” Surge então uma pergunta interessante: Como Dirac, um cientista não religioso, poderia associar Deus à sua equação?

Dirac sabia que as equações em física não são apenas combinações de números e letras; elas descrevem leis profundas da natureza. Quando uma equação é formulada, ela não apenas oferece respostas, mas revela a forma como a realidade opera. E, quando suas previsões se confirmam, ela demonstra estar em harmonia com o universo real.

Quando isso acontece, a inteligência presente na equação não apenas se manifesta no cientista que a deduziu, mas revela, em última instância, a inteligência de Alguém que criou a natureza para funcionar segundo leis tão finamente ajustadas que podem ser expressas por expressões matemáticas precisas.

Assim, uma equação física não é apenas uma escrita inteligente: é a ponta de um iceberg de conhecimento matemático muito mais profundo e abrangente — algo que só pode ser explicado adequadamente pela existência de um Criador todo-sábio e todo-poderoso.

Portanto, podemos concluir que uma equação que descreve uma lei da natureza revela Deus de duas maneiras: primeiro, por testemunhar a existência de um Ser que criou a natureza; segundo, por mostrar que esse mesmo Ser criou seres humanos capazes de compreender essa beleza matemática profunda. Por essa razão, podemos dizer que uma equação é a Assinatura de Deus.

(Rafael Christ Lopes, doutor em Cosmologia pela USP)

@siga, comente e compartilhe esse projeto no Instagram e no YouTube!
SITE: http://www.cristianismoabsoluto.com.br
INSTAGRAM: https://www.instagram.com/cristianismoabsoluto/
YOUTUBE: https://www.youtube.com/@cristianismoabsoluto

Uso político do criacionismo?

Recentemente, uma matéria da Revista Fórum argumentou que o criacionismo tem sido instrumentalizado pela “extrema direita global” como ferramenta política, especialmente sob o discurso de “valores cristãos” e combate à “doutrinação ideológica”. Será que esse é o propósito do movimento criacionista em si? A resposta, especialmente no contexto da Sociedade Criacionista Brasileira (SCB) citada no texto, é: NÃO.

1. Crença vs. ativismo político: O que é o criacionismo?

O criacionismo, por definição, é a crença de que o Universo, a Terra e a vida foram criados por um agente sobrenatural, com intuito e propósito, e não fruto de processos puramente cegos e aleatórios. No Brasil, a SCB – fundada em 1972 consciente de seu vínculo denominacional e voltada ao estudo bíblico-científico – tem como foco central o ensino e a pesquisa em defesa do design inteligente e da visão bíblica da origem da vida, e não a promoção de agendas políticas.

2. Quando indivíduos usam crenças para fins políticos

É importante reconhecer que alguns políticos ou grupos podem usar a bandeira do criacionismo para avançar pautas conservadoras, transformando uma crença legítima em instrumento de controle cultural. Mas isso não caracteriza o movimento como um todo. Em entrevistas e palestras, já destaquei que a liberdade religiosa inclui o direito de exercer crenças sem que isso implique coerção nem imposição nas esferas públicas e escolares, princípio também defendido por acadêmicos cristãos e estudiosos de direitos humanos.

3. Comparação histórica: como Darwin foi usado politicamente

Antes de a teoria evolucionista se popularizar, ela já foi utilizada para justificar ideologias políticas, como o darwinismo social e, sim, até o nazismo. Mas ninguém afirma que o darwinismo é equivalente ao nazismo. Do mesmo modo, não é porque algumas correntes políticas utilizam o criacionismo como justificativa ideológica que isso torna o criacionismo inerentemente extremista ou autoritário.

4. SCB defendeu seriedade intelectual

Ao contrário de teorias conspiratórias ou pseudociências, a SCB já publicou documentos explícitos repudiando interpretações extremas como a Terra plana, deixando claro que rejeita distorções científicas ou religiosas extremistas. Ela prioriza a discussão de temas como datações geológicas, genética e sistemas biológicos, sempre ressaltando responsabilidade acadêmica e integridade científica.

5. Por que essa confusão?

Parte do problema vem da má compreensão pública do que exatamente o criacionismo defende. Muitos críticos confudem linhas de pensamento diferentes – criacionismo da Terra jovem, design inteligente, criacionismo teísta – e acabam pintando o movimento com uma tinta uniforme. Isso leva ao erro de associá-lo automaticamente com projetos políticos de direita ou conservadores. A verdade é que existem criacionistas em diferentes espectros teológicos e políticos, inclusive dentro da academia cristã moderada.

Conclusão

O uso político que alguns fazem do criacionismo é real, mas isso não define o movimento como um todo. A Sociedade Criacionista Brasileira preocupa‑se com a defesa da Bíblia e do entendimento da criação como intencional, não com legislar moralismos ou centralizar o ensino religioso nas escolas públicas. É possível sustentar crenças religiosas com convicção, consciência e diálogo aberto, sem conflito com o Estado laico ou os direitos civis.

Assim como não julgaríamos a evolução com base nos abusos dos regimes totalitários que a utilizaram, não devemos julgar o criacionismo com base nas agendas políticas de certos setores. É necessário critério, respeito à pluralidade e uma leitura justa da proposta criacionista: uma alternativa intelectual e religiosa que oferece significado, não controle.

Mero acaso, fortuita necessidade ou design inteligente?

A Cosmos Magazine publicou recentemente uma matéria impressionante: engenheiros desenvolveram um robô capaz de jogar badminton com precisão e velocidade notáveis. Nomeado “Jueying”, o robô humanoide foi projetado por cientistas da China e utiliza inteligência artificial, sensores visuais de alta resolução e motores sofisticados para reagir aos movimentos do jogo em tempo real, devolvendo o volante com habilidade comparável à de um ser humano treinado. Essa conquista tecnológica é, sem dúvida, motivo de admiração. Mas também deveria ser motivo de reflexão.

Para que esse robô fosse capaz de realizar uma tarefa que para nós, humanos, parece simples – como jogar badminton – foi necessário o trabalho de uma equipe altamente capacitada, incontáveis horas de pesquisa, uma série de componentes específicos cuidadosamente organizados e coordenados, além de algoritmos complexos de tomada de decisão em frações de segundo. Nada disso aconteceu por acaso. Ninguém em sã consciência atribuiria o surgimento desse robô a uma combinação fortuita de peças metálicas, movimentos aleatórios ou seleção natural entre sucatas.

E, no entanto, muitos são os que olham para o corpo humano – infinitamente mais complexo que qualquer robô – e afirmam que ele surgiu por puro acaso, como resultado cego de mutações aleatórias e seleção natural ao longo de milhões de anos.

Esse tipo de raciocínio revela uma incoerência gritante. Se reconhecemos que o design de um robô, mesmo que simples, exige inteligência, planejamento e propósito, por que relutamos tanto em admitir o mesmo a respeito dos sistemas vivos, que são imensamente mais sofisticados?

O próprio ato de jogar badminton envolve visão binocular, cálculo de trajetória em tempo real, coordenação motora fina, controle muscular, memória muscular e tomada de decisão instantânea – todos esses atributos naturais em um ser humano, mas extremamente difíceis de replicar artificialmente. Jueying pode jogar badminton, mas ele não “sabe” o que está fazendo. Ele não se diverte, não tem propósito próprio, nem consciência. Tudo foi programado externamente. Ele é, literalmente, fruto de design.

Da mesma forma, o ser humano – com sua mente, emoções, raciocínio, liberdade e propósito – também é fruto de design. Não de um laboratório ou oficina, mas do Criador que projetou a vida com propósito, beleza e funcionalidade.

O Design Inteligente não é uma “ideia religiosa disfarçada de ciência”, como alguns críticos dizem. É uma conclusão lógica diante de evidências observáveis: informação codificada no DNA, sistemas biológicos irredutivelmente complexos, interdependência de órgãos e funções, e a presença de propósito aparente em todas as esferas da vida.

A Bíblia declara: “Porque as Suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o Seu eterno poder, como a Sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas…” (Romanos 1:20).

A criação não apenas aponta para um Criador – ela clama por Ele. Em um mundo que constrói robôs para tentar imitar o ser humano, talvez devêssemos parar e reconhecer que somos obra das mãos do Deus Criador, e não produto de processos impessoais e aleatórios.

O robô que joga badminton é uma maravilha da engenharia. Mas você, ser humano, é uma maravilha ainda maior, feita à imagem e semelhança de Deus.

Como Marie Tharp mudou a Geologia para sempre

Marie Tharp utilizou centenas de perfis sísmicos para reconstruir a topografia do fundo do mar

Marie Tharp nasceu em 30 de julho de 1920, na cidade de Ypsilanti, Michigan. Quando jovem, ela acompanhou seu pai, um agrimensor do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, em suas atividades de campo. Ela também adorava ler e queria estudar literatura no St. John’s College, em Annapolis, mas mulheres não tinham permissão para participar dos cursos. Então, ela foi para a Universidade de Ohio, onde se formou em 1943.

Ela trabalhou por um curto período na indústria petrolífera, mas achou o trabalho pouco gratificante e decidiu retomar seus estudos na Universidade de Tulsa, Oklahoma. Em 1948, formou-se em matemática e conseguiu um emprego no Laboratório Geológico Lamont, na Universidade de Columbia.

Na época, a Marinha dos EUA estava interessada em mapear o fundo do mar, considerado de importância estratégica para a futura guerra submarina. Marie iniciou uma colaboração prolífica com o geólogo Bruce Charles Heezen, especialista em dados sísmicos e topográficos obtidos do fundo do mar. Por ser mulher, Marie não tinha permissão para embarcar nos navios de pesquisa. Em vez disso, ela interpretava e visualizava os dados coletados em seu laboratório, produzindo grandes mapas do fundo do mar desenhados à mão.

Ao interpolar e plotar as ecossondagens do fundo do mar coletadas pelos navios de pesquisa e após meses de trabalho detalhado e cuidadoso, em 1957, Marie Tharp observou uma série de vales e cristas no meio do Oceano Atlântico.

A existência de uma única crista sob o Oceano Atlântico foi descoberta durante a expedição do HMS Challenger em 1872, realizando medições de profundidade através do oceano. Em 1925, foi confirmado por sonar que a crista de origem desconhecida se estende ao redor do Cabo da Boa Esperança até o Oceano Índico, tornando-se uma das maiores cadeias de montanhas da Terra. Marie Tharp sugeriu que a dorsal mesoatlântica era, na verdade, uma série de vales em fenda, correndo paralelamente ao longo de um eixo central onde a nova crosta oceânica se forma, separando blocos de fundo marinho mais antigo, formando a topografia da crista. Sua ideia foi inicialmente rejeitada como “conversa de menina”. Até mesmo Heezen se recusou teimosamente a aceitar essa explicação para a dorsal, alegando que ela se assemelhava à hipótese “desmascarada” da deriva continental, proposta por Alfred Wegener em 1912.

Entre 1959 e 1977, ela continuou a trabalhar em vários mapas de grande escala, mostrando que as dorsais meso-oceânicas se estendiam por todo o planeta. Pintados por Heinrich C. Berann e baseados nos dados compilados por Marie Tharp e Bruce Heezen, uma série de cinco mapas batimétricos foi publicada na edição de outubro de 1967 da revista National Geographic, popularizando os primeiros conceitos de tectônica de placas. Ao plotar os epicentros dos terremotos nos mapas do fundo do mar, Tharp também conseguiu demonstrar que as cristas são sismicamente ativas, dando ainda mais crédito à sua interpretação das cristas como centros ativos de expansão. Essa observação provou que as placas continentais estão de fato se movendo.

Na década de 1960, o geólogo canadense John “Jock” T. Wilson introduziu, com as dorsais meso-oceânicas (onde a nova crosta se forma), as zonas de subducção (onde a crosta antiga afunda de volta no manto terrestre) e as falhas transformantes (que acomodam movimentos laterais), todos os elementos necessários para a tectônica de placas moderna. Harry Hammond Hess, comandante da Marinha dos EUA em Iwo Jima, garimpeiro na Zâmbia e posteriormente professor em Princeton, publicou em 1962 um artigo que se tornaria um dos trabalhos de geofísica mais citados de todos os tempos. Ele formulou a hipótese de que os movimentos da crosta são impulsionados por correntes de rocha derretida no manto terrestre, alimentadas pela energia térmica resultante da decomposição radioativa de minerais, fornecendo também um mecanismo convincente para a tectônica de placas.

Ao contrário de Alfred Wegener, que morreu em 1930, Marie Tharp viveu o suficiente para ver sua pesquisa se tornar uma parte fundamental da geologia moderna.

“Poucas pessoas podem dizer isso sobre suas vidas: o mundo inteiro se estendia diante de mim (ou pelo menos os 70% dele cobertos por oceanos). Eu tinha uma tela em branco para preencher com possibilidades extraordinárias, um quebra-cabeça fascinante para montar: mapear o vasto fundo marinho oculto do mundo. Foi uma oportunidade única na vida – uma oportunidade única na história do mundo – para qualquer pessoa, mas especialmente para uma mulher na década de 1940. A natureza da época, o estado da ciência e eventos grandes e pequenos, lógicos e ilógicos, combinaram-se para fazer tudo acontecer” (Marie Tharp, 1999, “Connect the Dots: Mapping the Seafloor and Discovering the Mid-ocean Ridge”. Lamont-Doherty Earth Observatory of Columbia: Twelve Perspectives on the First Fifty Years 1949-1999, chapter 2).

Based on Tharp’s work, later geologists will quickly accept and expand on the continental drift hypothesis.

(Forbes)

O que há de ciência e de preconceito de classe por trás do criacionismo

Hoje em dia predomina a ideia de que ciência e religião não têm nada a ver uma com a outra. E, entre os mais esclarecidos, não é difícil encontrar quem tome o ateísmo como sinal de superioridade intelectual. Com o ativismo do cientista Richard Dawkins, somos levados a tomar a crença em Deus por mera demência ou puro delírio, decerto um demérito. Essa mentalidade que separa teístas atrasados de ateus científicos é recente e só prosperou no século 19. Seu primeiro expoente foi Auguste Comte, para quem a crença em Deus era uma fase da Humanidade a ser superada pela ciência. Tendo o amor como base, a ordem como meio e o progresso como fim, a Humanidade deixaria a crença em Deus para trás e adotaria a religião laica que cultua a Humanidade.

No mesmo século apareceu Marx, que também enxergava um futuro tecnológico e ateu para o homem. Para ele, a religião é ópio e a chave da história é a posse dos meios de produção, que são inventados e aprimorados por técnicos.

Essa visão, porém, encontra tão pouco amparo na realidade humana e na história da ciência que merece ela própria ser chamada de delírio ideológico. Um ateu científico que desdenhe da visão religiosa do mundo rechaçará, com razão, o criacionismo. Mas que explicação para a origem do Universo colocará em seu lugar? O Big Bang, a teoria criada pelo padre Georges Lemaitre, que deu uma contribuição à ciência maior do que a de qualquer ateu militante. Ser ateu não implica ter uma mente científica. Ser um religioso não implica ter uma mente anticientífica. […]

E a ciência é compreendida como uma escolástica ateia monopolizada por um grupo social de prestígio, localizado sobretudo na universidade pública. E, como os evangélicos são pobres ou nouveaux riches, a Ciência é monopólio de um grupo que necessariamente os exclui.

Perante um professor das universidades públicas, o brasileiro “esclarecido” terá deferência, pois nele vê o representante da ciência. Mas, se o professor universitário defender o criacionismo, serão irrelevantes todas as suas credenciais acadêmicas e até as da instituição. Isso revelará que ele é um crente, logo, uma pessoa sem nível, logo, um falso cientista.

O brasileiro, porém, não admitirá nunca o preconceito de classe. E, em vez de xingar os crentes de pobres e cafonas, preferirá xingá-los de obscurantistas e ignorantes, enquanto os pinta como homens brancos cis hétero para mascarar o classismo. No final das contas, o brasileiro “esclarecido” ouve bovinamente os cientistas dizerem que pesticida agrícola é machista, que ser homem ou mulher não tem nada a ver com biologia, que tribunais raciais são eficazes e morais, que o comunismo ainda não foi testado o suficiente, que a pobreza só existe por causa da maldade dos ricos e uma centena de outras bobagens – porque são bobagens autenticadas por pessoas de condição social prestigiosa.

Mas o criacionismo não, porque é coisa de pobre.

Para mostrar como é descabido o preconceito brasileiro, nada melhor do que apontar Isaac Newton, um evangélico fervoroso que pretendia enaltecer a obra do Criador com seus estudos. E que foi, inclusive, uma espécie de patrono intelectual do criacionismo.

Numa época em que teologia, filosofia (ou metafísica) e física (ou filosofia natural) eram todas vistas como conexas, a criação de uma nova física implicava um desacordo com teologias e metafísicas estabelecidas. A universidade católica e o mundo ibérico (Brasil incluso) se mantiveram os mais fechados possíveis na escolástica. Na França, porém, o cartesianismo conquistou físicos, matemáticos e teólogos. Assim, o surgimento da física newtoniana causou uma guerra de papel entre a Inglaterra e a França (à qual se aliou um bravo alemão, Leibniz, recrutado para as suas hostes).

Se os cartesianos derivavam o mundo de Deus a partir da lógica, Newton reivindicava a façanha oposta: a partir da experiência, derivar do mundo o seu Criador. Newton apresentava as maravilhas da ótica por ele descobertas e perguntava: “Terá sido o olho engendrado sem perícia em ótica? E o ouvido, sem o conhecimento dos sons?” Dando por certo que não, Newton concluía ser “manifesto que um Ser incorpóreo, vivente, inteligente, onipresente, que, no espaço infinito […] vê intimamente as coisas em si mesmas”.

Morto Newton, os teólogos ingleses insistiram na ideia de uma “teologia experimental” que usava as maravilhas da natureza para provar a existência de um grande Artífice. Nomes-chave para esse movimento são as Boyle Lectures e o Bispo Joseph Butler.

Vem daí o criacionismo cristão que é bradado por pastores das nossas periferias: do newtonianismo. O criacionismo hoje anda pelas favelas brasileiras, mas o seu berço é a Royal Society. E, se recuarmos mais no tempo, encontramos outra origem ainda mais nobre: a Grécia antiga.

A Renascença trouxe aos europeus uma torrente de filosofias antigas, das quais duas foram extremamente populares na Antiguidade tardia: o estoicismo, de Zenão de Cítio, e o epicurismo, de Epicuro. Os estoicos enxergavam uma natureza perfeitamente ordenada e tomavam a própria perfeição da ordem natural como prova do seu engendro racional por uma divindade muito sábia. Os epicuristas eram seus opositores.

Para eles, o mundo é caótico, os deuses são parte da natureza e vivem em eterno estado de gozo, indiferentes à Humanidade. No mundo, só há átomos em movimento e vazio, e tudo o que existe é fruto do movimento dos átomos. As formas mais resistentes que surgem duram mais, enquanto as outras perecem logo.

Era uma filosofia pré-darwinista e praticamente ateia, mas nada impediu que cristãos – até Newton – pensassem em átomos e acreditassem neles. Do mesmo jeito que ateus militantes acreditam na física newtoniana e no Big Bang.

Talvez Newton não tivesse sido capaz de pensar a sua física sem imaginar o mundo como um relógio criado por um Relojoeiro. Talvez Dawkins não tivesse sido capaz de pensar no seu gene egoísta sem uma cosmovisão ateia. Ao cabo, a ciência é um tesouro da humanidade em que cooperam evangélicos fervorosos, ateus militantes, católicos e gente das mais variadas cosmovisões. Que aprendamos, então, a não substituir o exame de ideias por um mal disfarçado preconceito de classe.

O criacionismo é muito mais bem-nascido do que as muitas teorias que são moda na universidade – e ainda assim é falso. Será que somos tão bem embasados na aceitação de teorias chiques quanto na recusa da teoria dos crentes?

(Bruna Frascolla é ensaísta e doutora em Filosofia; Gazeta do Povo)

Gaia, agricultura sintrópica e design inteligente: convergências e divergências

A proposta que trago hoje não é a de aprofundar as origens mitológicas e pagãs de Gaia, nem suas implicações teológicas e filosóficas, tampouco seu papel como fundamento do ambientalismo. Também não pretendo discutir a agricultura sintrópica no sentido estrito da produtividade, ou mesmo criticar aqueles que, com afeto, abraçam árvores. Meu objetivo é trilhar um caminho intermediário, explorando a essência da hipótese de Gaia, o que caracteriza a agricultura sintrópica, e, sobretudo, as razões que me levaram a aproximar esses dois conceitos. Mais importante ainda, busco demonstrar a relevância dessa discussão para o Design Inteligente (DI), investigando sua influência e importância.

O primeiro motivo para essa abordagem reside no ressurgimento da ideia de Gaia no meio acadêmico universitário, especialmente nas Humanidades Ambientais, um campo que busca integrar as ciências sociais à reflexão sobre a questão ambiental. Cito como exemplo Bruno Latour, um autor influente nesse meio, embora eu discorde de grande parte de suas proposições. É crucial avaliar criticamente as ideias que emergem nesse contexto.

Para compreendermos a teoria de Gaia, recorro à definição de James Lovelock e Lynn Margulis, que a concebem como um esquema planetário autorregulado pelos organismos vivos, que modulam sua própria existência. Esse fenômeno, operando sem planejamento ou antevidência, teria permitido a continuidade da vida nos últimos 3,8 bilhões de anos [sic], abrindo portas para a discussão sobre o Design Inteligente.

James Lovelock, um químico britânico notório por suas invenções, inclusive um aparato para medir os clorofluorcarbonetos (CFCs) na atmosfera, e Lynn Margulis, bióloga norte-americana, propuseram a hipótese de Gaia. Margulis, aliás, é conhecida pela teoria da endossimbiose, que explica a origem do DNA mitocondrial nas células eucarióticas. Essa teoria, comparada de forma lúdica ao jogo Pac-Man, sugere que uma célula ancestral faminta englobou outra, que não foi digerida e se tornou parte integrante da célula hospedeira. Da mesma forma, a teoria da endossimbiose explica como as células primitivas teriam evoluído.

Dando um salto para outro tema, apresento Ernst Götsch, suíço radicado no Brasil, considerado o pai da agricultura sintrópica. Götsch notabilizou-se por reflorestar e recuperar vastas áreas degradadas, implementando sistemas agroflorestais no sul da Bahia. Esses sistemas buscam recuperar a terra, tornando-a produtiva para alimentos, fibras e madeira, por meio de consórcios de diferentes espécies. O processo imita a sucessão natural, combinando culturas como alface em fases iniciais, seguidas por mandioca, milho e outras, até que o sistema se transforme em uma floresta diversificada.

A agricultura sintrópica se nutre da fonte gaiana. Lovelock, na década de 1960, já colaborava com a NASA na busca por vida em outros planetas, começando por Marte. Ao comparar as atmosferas de Marte e da Terra, percebeu diferenças significativas. Em Marte, o dióxido de carbono predominava (96%), enquanto na Terra o nitrogênio era o gás mais abundante (78%), seguido pelo oxigênio (21%), com apenas uma pequena fração de dióxido de carbono (0,03%). Esse insight levou Lovelock a propor que a atmosfera terrestre seria resultado da ação dos primeiros micro-organismos, que, ao evoluírem e realizarem quimiossíntese e fotossíntese, teriam produzido o oxigênio atmosférico.

Essa conclusão, embora polêmica, sugere que a atmosfera terrestre seria o resultado da ação dos primeiros micro-organismos. No entanto, essa visão contrasta com as explicações que atribuem a origem do oxigênio a processos puramente químicos. Lovelock e Margulis propuseram que, logo após o surgimento da vida, ela teria começado a controlar o ambiente planetário e sua homeostase. Essa tese implica que a vida, ao surgir, tornou-se capaz de controlar o ambiente que a sustenta, apelando para o conceito de homeostase, que, no contexto fisiológico humano, refere-se à manutenção da temperatura corporal constante.

A hipótese de Gaia, em sua versão mais radical, sugere que a biota da Terra criou as condições do seu ambiente e o regula, mantendo um estado confortável para os organismos. Essa visão, no entanto, parece exagerada. A Terra, por essa perspectiva, seria um superorganismo, capaz de se reproduzir e evoluir. Essa analogia, embora útil, pode levar a interpretações equivocadas.

Darwin, por sua vez, talvez questionasse essa teoria, que inverte a lógica da evolução das espécies. Na visão darwinista, o ambiente é o fundo, um meio estático ao qual as espécies se adaptam por meio de mutações e seleção natural. A teoria de Gaia, ao contrário, sugere que as espécies criam o ambiente para se beneficiarem.

Após a hipótese inicial, Lovelock apresentou explicações que revelam uma teleologia implícita, o que gerou críticas, como a de Richard Dawkins. A ideia de que a Terra funciona de forma autorregulada e que o ser humano perturba esse equilíbrio, embora atraente, carece de evidências científicas robustas.

Em obras posteriores, Lovelock chegou a afirmar que Gaia é todo o planeta celebrando uma cerimônia sagrada, e que os seres humanos são o olho da Terra, um sistema que evoluiu e teria criado inteligência para se observar. Essas afirmações, que remetem a Carl Sagan, cuja esposa foi Lynn Margulis, revelam uma visão metafísica e religiosa.

Para compreendermos melhor essa questão, podemos recorrer à teoria de sistemas, que organiza os seres vivos em níveis de complexidade crescente: átomos, moléculas, células, tecidos, organismos, populações, comunidades, ecossistemas, biomas e biosfera. A teoria de sistemas postula que o todo é sempre mais complexo e possui características que não pertencem à soma das partes. A evolução darwiniana, por sua vez, foca-se nos organismos e suas populações, sem explicar como a evolução de uma espécie pode gerar propriedades de ciclo bioquímico ou de autorregulação em um ecossistema.

A consciência humana, por exemplo, não pode ser explicada pela soma dos neurônios. Trata-se de um princípio emergente. Lovelock, ao reconhecer a existência de princípios emergentes, admitiu a dificuldade em explicar os mecanismos que os originam. A seleção natural, por sua vez, não atua para o bem comum, mas para o bem da espécie.

Artigos recentes, datados de 2022, demonstram que a comunidade científica continua a debater essas questões, buscando entender como processos em nível da biosfera e dos ecossistemas podem ser explicados pelas partes que os compõem. A brincadeira “Survival of the systems” reflete essa busca por uma nova abordagem que considere as propriedades irredutíveis dos sistemas sociais e ecossistemas.

Ernst Götsch, com sua agricultura sintrópica, oferece um exemplo prático dessa busca. Seus sistemas agroflorestais funcionam, mas a explicação que ele oferece para seu funcionamento apela para noções de Gaia e para uma teleologia questionável. Götsch fala da “inteligência da floresta” e da função desempenhada pelas plantas por prazer interno e amor incondicional. Ele afirma que não há competição entre as plantas e os outros seres, e que os humanos são parte de um sistema inteligente, um macro-organismo.

Essas ideias, embora inspiradoras, carecem de base científica. Montanhas, rios, seres humanos e outros seres não humanos não possuem agência, ou seja, a capacidade de se projetar para o futuro, sonhar, ter desejos e fazer escolhas. Animais e plantas agem por instinto. Se a floresta fosse inteligente, veríamos cangurus na Austrália ponderando sobre suas escolhas alimentares.

Essas questões remetem à complexidade irredutível, conceito explorado por Michael Denton, biólogo sênior do Discovery Institute. Denton argumenta que a adaptação deve existir tanto no ambiente quanto no organismo. O ambiente, portanto, já estava pronto para a vida, incluindo a vida humana.

Denton questiona como poderia haver vida terrestre sem a prévia adequação ambiental e o ajuste fino do ciclo hidrológico, as propriedades térmicas da água, a visão de alta equidade e a fotossíntese. Ele conclui que o planeta foi projetado para comportar a vida humana.

Afirmar que o ajuste no sistema biota-atmosfera ou na sucessão vegetal em agroecossistemas se dá por conta da ação autorreguladora dos próprios organismos é assumir uma posição teleológica que leva a duas conclusões: ou a biota e os componentes abióticos possuem agência, ou um agente externo programou organismos e propriedades físicas e químicas da matéria.

Em suma, a agência existe, mas sua origem é externa aos organismos, à energia e à matéria. A questão que se coloca é: Darwin, Gaia ou Design Inteligente?

(Rodrigo Penna-Firme é professor do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC Rio; PhD em Antropologia pela Indiana University (EUA), biólogo, mestre em Ciências Ambientais e Florestais)