
O primeiro capítulo do livro A História da Vida, intitulado “O Universo ao Lado”, apresenta de forma clara e instigante o propósito central de Michelson Borges: discutir as cosmovisões que moldam a compreensão humana sobre a origem e o sentido da vida. O autor parte da premissa de que ninguém é totalmente neutro; toda pessoa interpreta o mundo a partir da sua cosmovisão, sejam eles criacionistas, que reconhecem um Criador intencional, ou naturalistas/darwinistas, que procuram explicar a existência com base apenas nas leis da natureza.
O capítulo tem início com um episódio pessoal no qual a esposa do autor, Débora, participa de um debate em sala de aula sobre a origem do ser humano. A situação é apresentada como uma metáfora para os “universos ao lado”: dois modos distintos de ver a realidade, o criacionista e o evolucionista, que coexistem, mas frequentemente se negam a dialogar de forma aberta e respeitosa. Borges usa esse exemplo para mostrar que o conflito entre fé e ciência, muitas vezes, não é de evidências, mas de interpretação das mesmas evidências a partir de olhares diferentes.
Em uma das passagens mais marcantes do capítulo, Michelson cita o debate histórico entre o bispo Samuel Wilberforce e o cientista Thomas Huxley, ocorrido em 1860, como um exemplo de como a defesa da fé pode se tornar ineficaz quando conduzida com orgulho e sarcasmo. Durante a discussão sobre a teoria da evolução, o bispo tentou ridicularizar Huxley, perguntando ironicamente se ele descendia de um macaco por parte do avô ou da avó de Huxley, o qual respondeu que preferiria ter um macaco como avô do que um homem educado e influente, mas que usa sua inteligência apenas para ridicularizar o outro em um debate cientifico
Michelson Borges destaca esse episódio não para apoiar Huxley, mas para mostrar que o bispo foi infeliz em sua abordagem, usando o ridículo em vez da razão. Ao agir assim, perdeu uma oportunidade valiosa de defender a fé com equilíbrio e preparo intelectual. Para o autor, esse tipo de postura contribui para o descrédito do criacionismo, reforçando a imagem de que a religião teme o debate científico, algo que ele se empenha em refutar ao longo da obra.
O autor argumenta, de modo convincente, que o naturalismo filosófico, base do evolucionismo moderno, é em si uma forma de crença, uma visão de mundo que exclui, por princípio, qualquer possibilidade sobrenatural. O autor mostra que essa postura, longe de ser neutra, é uma escolha ideológica que coloca limites artificiais ao alcance da ciência. Citando pensadores como Phillip Johnson, Stephen Meyer e Leonard Brand, Borges sustenta que há espaço legítimo para questionar as explicações naturalistas e considerar a hipótese de um design inteligente como racional e coerente.
A principal força do texto está na clareza didática e na capacidade de unir fé e razão. O capítulo conduz o leitor a refletir sobre como as evidências científicas podem ser interpretadas à luz de uma cosmovisão criacionista, sem negar a importância da investigação científica. O autor defende que a verdadeira ciência deve ser livre para seguir as evidências que apontam para a existência de um Criador.
Em síntese, o capítulo “O Universo ao Lado” é uma leitura envolvente e profundamente reflexiva. Michelson Borges mostra que crer em Deus não é negar a ciência, mas reconhecer e compreender que a vida carrega marcas claras de planejamento e propósito.
(Jaqueline Camargo é aluna do curso Teologia e Estudos Adventistas)
