Zichichi: o físico que desafiou o darwinismo e confrontou os mitos da ciência moderna

A morte do físico italiano Antonino Zichichi, noticiada recentemente pelo Vatican News, reacende o debate sobre uma das vozes mais corajosas – e menos convencionais – do cenário científico europeu. Ex-presidente da Federação Mundial de Cientistas, Zichichi não foi apenas um pesquisador respeitado na área da física de altas energias; foi também um crítico contundente de certos dogmas culturais travestidos de ciência. Católico convicto, ele dedicou parte de sua produção intelectual a discutir a relação entre fé e razão, posicionando-se de maneira firme contra o cientificismo e contra o darwinismo apresentado como verdade incontestável.

Em seu livro Por Que Acredito NAquele que Fez o Mundo, Zichichi critica duramente a teoria da evolução biológica – algo que contrasta com a postura dos últimos papas, que têm defendido alguma forma de evolução teísta. Quando li essa obra pela primeira vez, tive a impressão de estar diante de algo equivalente, no campo da física e da filosofia da ciência, ao que A Caixa Preta de Darwin, de Michael Behe, representou para a biologia. Zichichi desmonta, com argumentos epistemológicos, a pretensão de que o evolucionismo seja uma consequência necessária da ciência galileana.

Segundo ele, há flagrantes mistificações no edifício cultural moderno que passam despercebidas do público em geral. Entre elas, a ideia de que ciência e fé são inimigas; de que ciência e técnica são a mesma coisa; de que o cientificismo nasceu no coração da ciência; de que a lógica matemática descobriu tudo e, se não descobre o “Teorema de Deus”, é porque Deus não existe; de que a ciência já explicou tudo e, se não encontra Deus, é porque Ele não existe; de que não há problemas na evolução biológica, apenas certezas; e de que somos filhos do caos, sendo o caos a última fronteira da ciência.

Para Zichichi, a raiz dessas confusões está na incompreensão do que é ciência. Ele afirma: “Nem a matemática nem a ciência podem descobrir Deus pelo simples fato de que estas duas conquistas do intelecto humano agem no imanente e jamais poderiam chegar ao Transcendente.” E vai além: “A teoria que deseja colocar o homem na mesma árvore genealógica dos símios está abaixo do nível mais baixo de credibilidade científica. […] Se o homem do nosso tempo tivesse uma cultura verdadeiramente moderna, deveria saber que a teoria evolucionista não faz parte da ciência galileana. Faltam-lhe os dois pilares que permitiriam a grande virada de 1600: a reprodução e o rigor. Em suma, discutir a existência de Deus com base no que os evolucionistas descobriram até hoje não tem nada a ver com a ciência. Com o obscurantismo moderno, sim.”

São declarações ousadas – especialmente vindas de um cientista católico de projeção internacional. Em um ambiente acadêmico frequentemente avesso a críticas ao paradigma evolucionista, Zichichi demonstrou independência intelectual rara. Concorde-se ou não com todas as suas conclusões, é inegável que ele desafiou o consenso e convidou seus leitores a refletirem sobre os limites da ciência e sobre o uso ideológico que muitas vezes se faz dela.

Sua morte encerra uma trajetória marcada por pesquisa, liderança e coragem. Mas suas perguntas permanecem. Talvez o maior legado de Zichichi não esteja apenas nas equações ou nos laboratórios, mas no convite a pensar criticamente.

(Michelson Borges é jornalista, pós-graduado em Biologia Molecular e mestre em Teologia pelo Unasp e pelas Faculdades EST)

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