
Nos últimos tempos, manchetes alarmistas sugeriram que o núcleo interno da Terra teria “parado” e passado a girar no sentido oposto – o suficiente para alimentar temores apocalípticos. Mas o que as pesquisas realmente dizem? A resposta curta é: não é o fim do mundo (pelo menos não por causa disso). Trata-se de um fenômeno natural, cíclico e já esperado pelos geofísicos.
O estudo sobre a multidecadal variation of the Earth’s inner-core rotation, publicado na revista Nature Geoscience, analisou dados sísmicos acumulados ao longo de décadas. Terremotos fortes produzem ondas sísmicas que atravessam o planeta inteiro. Ao comparar o tempo de chegada e a forma dessas ondas em estações sismográficas ao redor do mundo, os cientistas conseguem “ver” o que acontece no interior da Terra – inclusive no núcleo interno, uma esfera sólida de ferro e níquel do tamanho aproximado da Lua.
Quando ondas sísmicas percorrem o mesmo trajeto em anos diferentes e chegam com diferenças mínimas de tempo, isso indica mudanças na posição e rotação do núcleo interno em relação ao manto e à crosta.
Ele parou mesmo?
Não exatamente. O que os pesquisadores observaram foi que o núcleo interno reduziu sua rotação relativa, atingindo um ponto de quase sincronia com o manto, e depois passou a girar levemente no sentido oposto. Isso não significa uma inversão brusca ou caótica, mas uma oscilação suave, como um pêndulo que desacelera, para, e muda de direção.
Por que isso acontece?
O núcleo interno não está isolado. Ele sofre a influência de forças gravitacionais do manto, interações eletromagnéticas com o núcleo externo líquido, e da própria dinâmica térmica do planeta. Essas forças geram ciclos naturais de aceleração e desaceleração da rotação, com períodos estimados em décadas (aproximadamente 60–70 anos). Ou seja, isso já aconteceu antes – e voltará a acontecer.
Há riscos para a vida na Terra?
Não. Nenhum risco conhecido. Essas variações não causam terremotos, não afetam o campo magnético de forma perigosa, não alteram o clima, não representam ameaça à vida.
O campo magnético da Terra, que nos protege da radiação solar, é gerado principalmente pelo núcleo externo líquido, não pelo núcleo interno sólido. As mudanças observadas são sutis demais para provocar qualquer colapso magnético ou ambiental.
Há implicações práticas?
Sim, mas todas científicas, não catastróficas. Esses estudos ajudam a refinar modelos do interior da Terra, compreender melhor o comportamento do campo magnético, melhorar a interpretação de dados sísmicos, avançar no conhecimento sobre a história térmica do planeta. Em outras palavras, é ciência de ponta – não sinal de desastre iminente.
Então, por que tanto alarde?
Porque fenômenos complexos costumam ser simplificados (ou distorcidos) quando chegam ao público. “O núcleo da Terra mudou de direção” soa muito mais dramático do que “detectamos uma oscilação cíclica na rotação relativa do núcleo interno”.
O núcleo interno da Terra não entrou em colapso, não parou de funcionar e não ameaça o planeta. O que a ciência identificou foi mais uma peça no quebra-cabeça fascinante da dinâmica terrestre: mudanças lentas, previsíveis e cíclicas, que ocorrem muito abaixo de nossos pés.
